6/21/2006
Neuróticos somos todos
Tudo isto, dentro do rol das nossas pequenas neuroses, é “normal”. Todos temos um pouco de obsessivo-compulsivo, todos temos variações de humor - sobretudo nós, meninas, graças às nossas bem conhecidas hormonas – sem que isso faça de nós maníaco-depressivos. Sim, é verdade que a fronteira entre a “normalidade” e a “loucura” ou o “desvio” é uma linha tão ténue que por vezes não sabemos bem como situar certos comportamentos, pensamentos ou sentimentos. Por mim falo, obviamente, mas sei que não sou a única a questionar-se sobre estes assuntos. Talvez por isso sempre fui “atraída” pelas questões da doença mental. O que é? Como podemos determinar o que é “normal” e o que é “patológico”? Se eu “perder a razão”, será que me vou aperceber?
Entre o que é considerado um indivíduo mentalmente “são”, ou seja, saudavelmente neurótico, e as desordens graves do foro mental, como as psicoses, esquizofrenias, etc, há as chamadas personalidades borderline. Poder-se-ia dizer que são pessoas que vivem sempre “no fio da navalha”. Elas e os que vivem em torno delas. Os borderline fazem parte de uma “categoria” de perturbações que a psiquiatria não consegue “arrumar” na “prateleira” das neuroses, porque são francamente mais “destrambelhados” que a maior parte dos “neuróticos normais”, mas que também não chegam a apresentar um perfil verdadeiramente psicótico. O transtorno de personalidade borderline faz parte de um conjunto que vai do histrionismo à perturbação ansiosa, da personalide paronóide à perturbação esquizóide. Muitos destes distúrbios implicam uma enorme dose de agressividade/hostilidade para com os outros, o que afecta particularmente os mais próximos, com grande incidência nas famílias. Muitas vezes, as “crises” são cíclicas e todos os que vivem com aquela pessoa confrontam-se diariamente com a recordação da mais recente e com a expectiva da próxima. À espera de quando ele (ou ela) se vai passar novamente. A recear esse momento. Porque frequentemente estas pessoas não reconhecem o problema que têm – ou só o reconhecem nos períodos de acalmia - e, obviamente, recusam o tratamento –ou interrompem-no ao menor sinal de melhoria, piorando logo em seguida -, é extenuante viver com elas. Em muitos casos, existem consumos de drogas e sobretudo de álcool – essa droga dura legal e sempre minimizada por grande parte da sociedade que tantos estragos faz (mas sobre esse assunto falarei noutro dia, que dá posta das grandes) – , o que ainda torna a situação mais difícil. E porque essas pessoas têm, quase sempre, dupla personalidade, quem (con)vive com elas tem relutância em desistir delas. Porque o “outro lado” é por vezes muito diferente. Sedutor. Bom.
Mas quem está próximo também acaba por ficar afectado. Doente. Porque a doença mental é tão contagiosa como qualquer virose, acabando por minar toda a família. As pessoas em volta nunca sabem. Nunca sabem se podem dizer o que vão dizer. Se podem fazer o que vão fazer. Se a acção mais inocente, mais inconsciente não se vai virar contra elas. Tudo tem de ser medido, cuidado. A espontaneidade, a impulsividade não podem sobreviver. Nem a frescura, a inocência, ou a sanidade. Pois são autênticos vampiros emocionais. Especialistas na manipulação, na projecção ("eu não estou doente, tu é que estás"), na chantagem emocional.
Na minha vida já me cruzei com vários “casos” destes. Pessoas que conheci, com quem me dei, com quem vivi, convivi, de quem gostei, que amei, que deixei, pessoas que se foram, que voltaram, que ficaram, que já lá vão. Às vezes interrogo-me por que motivo me confronto tão insistentemente com este lado da vida, com este aspecto da pessoa humana. E, como sou profundamente neurótica (ou quem sabe talvez para lá disso), sofro. Por mim, por elas, pelo que são, pelo que foram, pelo que fizeram, deixaram de fazer, poderiam ter feito. Pela marca profunda que deixam em todos quantos cruzam o seu caminho. Mesmo quando dizemos BASTA.
6/20/2006
Era capaz de apostar
6/17/2006
Às amigas do Nada Como Realmente
Este post, escrito a correr, é só pra dizer-vos que vocês estão no meu coração e no meu pensamento. Só que sem net em casa e com censura no local de trabalho, é difícil manter isto. E daqui para a frente, ainda vai ser pior. Nos próximos tempos vão ver-me raramente por aqui: trabalho, mestrado e família "obligent". Hoje passei nalguns dos vossos cantinhos e amanhã tentarei terminar a ronda. Espero que ninguém fique melindrado(a)! Só consigo ir a uma de cada vez. Mas, como já disse a algumas hoje, "I'll be back", até porque isto já me está na "massa do sangue", se é que é assim que se diz... Mi aguardem!
Então, se me dão licença, vou ali e já venho. Untill then, good night
6/07/2006
Neste momento, mais do que nunca, quero reafirmar quem sou, e aquilo em que acredito

Porque quero viver num mundo às cores
Porque quero que os meus filhos cresçam e tenham os seus filhos num mundo às cores
Porque acredito (ainda) na paz, no amor, na tolerância
Porque quero acreditar que há futuro
Porque quero acreditar que quem vai para a televisão vangloriar-se de ter armas mortíferas em casa, de estar disposto a usá-las e apelar ao seu uso em nome das suas aberrantes ideias de ódio será metido num dos guettos cuja existência defende onde, espero, apodrecerá juntamente com os seus aberrantes "correligionários" (é assim que se diz? qualquer epíteto de que me lembre é ofensivo para as pessoas normais)
6/03/2006
E como já não há cu pra tanta mama...*

Agora vou falar de Rock. In Rio. Tejo, que o outro, o de Janeiro, tá lá longe, e ficará para outra altura. Breve, espero eu. Mas agora vou falar de Rock. Eh pá, a vossa Calamity é já uma trintona bem enxuta, e tem gostos de quarentinha. Talvez vocês não se revejam, inúmeros e incontáveis, mas eu tenho que partilhar: ontem tirei a minha barriguinha - e sobretudo as pernocas - de misérias:
Carlos Santana e Roger Waters na mesma noite é muito, mesmo para uma Calamity que já leva uma boas centenas (quiçá milhares) de concertos - e bons! - no currículo. Ambos já constavam do dito (currículo) e até tinha sido no mesmo ano (2003? 2004? - confesso que não tenho bem a certeza), mas, caros inúmeros e incontáveis, a coisa ontem à noite foi mesmo em grande!
Santana: grande senhor, grande mago da guitarra! Dançar, dançar até mais não! A Calamity a pensar com os seus botões: eu realmente devia ter nascido num país da América Latina. É que fui feita para o sol, os climas tropicais, a música quente, os corpos dançantes. Nada a fazer, não tenho cura - e também não quero ter!
Só tenho pena que o gajo não saiba, nem goste de dançar. Se não, metia-me mais a sério na coisa. Ai metia, metia. Que saudades que eu tenho de uma das melhores salas desta cidade, o agradavelmente decrépito Ritz Club! Que fechou há mais de 5 anos para umas obras milionárias que nunca mais acabam! (e será que chegaram a começar?)
Kadhaffi! Toca a abrir a casa, que tenho saudades, ouviste?!
À meia noite e qualquer coisa, subia ao palco, magnificamente acompanhado por uma banda de virtuosos (não desfazendo em nada no seu antecessor!) esse grande senhor que dá pelo nome de Roger Waters. O David Gilmour e companhia que me desculpem - ou talvez não, tou-me nas tintas, não cortassem relações com o homem!** - mas já há muito que deviam ter desistido de usar o grande nome de Pink Floyd em vão. É que o Roger Waters não precisa de vocês para nada. O homem, aos 61 anos, faz os Pink Floyd sozinho. Pronto, está bem, com uma ajudinha da grande banda que soube reunir. Mas em grande estilo, como, aliás, já tinha demonstrado no concerto memorável do Pavilhão Atlântico, em que brindou os presentes com uma actuação brilhante incluindo a passagem do julgamento do The Wall e momentos de Wish You Were Here a The Final Cut, como eu nunca julguei ser possível, mais de vinte anos após me apaixonar por esta banda. Levando-me às lágrimas por mais de uma vez.
Pois ontem o senhor tornou a encher a medidas. Mais de duas horas e meia de concerto, com direito a Dark Side of the Moon praticamente do princípio ao fim. Aquela mulher que canta nos coros é ABSOLUTAMENTE DIVINAL e contemplou os mais de 60 mil que lá estavam com um "The Great Gig in the Sky" em nada inferior ao original. Inúmeros e incontáveis. Se não sabem do que estou a falar (e se sabem também, toca a ir remexer na colecção de vinis dos papás ou dos tios. De certeza que vão lá encontrar este tesouro:

Vá. Vão lá pôr a tocar. Depois venham falar-me de trance psicadélico.
* às mamas e assuntos "pendentes" (Salvo seja, claro! Ricas mamas! - as minhas e as das minhas queridas inúmeras e incontáveis), voltaremos quando o assunto estiver menos na berra, que a mim cansam-me as "modas". Para algum de entre os meus inúmeros e incontáveis leitores que porventura não tivesse conhecimento do ultrabadalado assunto em questão aqui, trata-se disto, disto, e de tudo aquilo que se lhe seguiu, não necessariamente por esta ordem - e, como diria o meu caro Sérgio Godinho, "perdoem-me aqueles que ficaram esquecidos"...
** eu sei e eu vi que os ditos-cujos Pink Floyd se "reconciliaram" temporariamente, ao fim de 23 anos de briga feia, para um momento memorável, há poucos meses atrás. Para quem não saiba, foi no Live 8, em julho de 2005. Foi bonita a festa, pá...
5/30/2006
O Nada Como Realmente foi à praia
Já foi no Sábado, mas gostaria de partilhar com os meus inúmeros e incontáveis alguns momentos de espanto, beleza e não só.
Por exemplo, já ouviram falar daquele filme, a Costa do Mosquito? Ou, like american say, The Mosquito Coast? Pois bem, pasmem se quiserem:

Pois é, inúmeros e incontáveis, aquilo que podeis ver, mais escuro na areia, não são algas, não são grãozinhos de areia mais escura, não. Aquilo são mosquitos. Dezenas de centenas de milhares de mosquitos. Mosquitos que, nadando como realmente, foram parar à costa, onde morreram estatelados na areia. Não é como o gajo aqui de cima que continuou a nadar na areia, como realmente. Os mosquititos, esses, ou nadaram como realmente e mararam realmente exaustos, ou voaram, voaram e deram à costa vivinhos da silva. E chatos comó caraças. Já não se pode falar de orla costeira, mas sim de orla mosquiteira. Pois é.
Mas há mais, inúmeros e incontáveis. Os mosquitos sentem uma atracção irresistível pelas cores claras. Quereis ver? Aqui vai:

Pois é. É verdade. Se os meus caros inúmeros e incontáveis não acreditam, ora cliquem lá na imagem, de forma a aumentá-la. Vêem? (Eu espero que funcione... caso contrário tenho de pedir ajuda ao dito-cujo webdesigner). Sim, eu sei que aquele bicho preto maiorzito é uma carocha. O que é que querem, o homem achou piada ao beatle. Mas os outros, mais pequeninos que, espero, podeis ver em cima do pano... pois é. Mosquitinhos. Aqueles, os amosquitinhos dos afilamentos das alâmpadas, lembram-se? Deixem lá. Se calhar não se lembram. Isto é coisa do passado. Do século passado...
Mas se os mosquitos gostam de amarelo... que fará do branco??? Pois é. What you're about to see is SIMPLY UNBELIEVEBLE!!! Será da cor? Será do facto de se tratar de uma peça de roupa interior de senhora? Será do preço exorbitante que a mesma custou na loja da Chicco de Campo de Ourique? Será do cheiro a leite?? Aceitam-se explicações...

Conseguis ver, inúmeros e incontáveis? Ora aumentai lá a dita-cuja imagem. Espero que consigais (Eu cá só consigo no original. Mas depois pespegá-la aqui aumentada é do caneco... Oh gaijo! Volta, tás perdoado!!!) Garanto-vos que aqui não há qualquer photoshop. Mas o melhor... ainda está por vir. Preparai-vos agora para momentos de pura beleza. Ora deêm-me lá um bocadito para ir lanchar, que isto de estar a arrastar imagens pelo post abaixo cansa e dá uma fome do caraças... Se alguém souber como se metem as fotos nesta bosta directamente lá onde a gente as quer meter, é favor acusar-se... CK? Queres ajudar a CJ? Eu prometo que te ensino a colocar acentos, tis e cedilhas nos Cs (mas que raio de teclado terá ela???).
Vou ali e já venho...
O Nada Como Realmente foi à praia, parte 2
E agora, terminado o mê lanchinho, e constatando como constato que enquanto fui e vim, mais de vinte pessoas - vinte passaram por aqui sem nada dizer, prossigo com as maravilhas da profíqua ida à praia da vossa humilde Calamity. Quereis ver a vossa Calamity a segurar o céu com as suas próprias mãos? Sim? Mais uma vez, quer acreditem quer não, what you're about to see não tem PITADINHA de photoshop. Ora espreitem lá:

E com esta, se não me levam a mal, despeço-me por agora, com estima e amizade, que tenho ali uma gaijinha aos gritos, a dizer que se não a agarro já, escolhe uma mãe a sério, daquelas com blog na internet e tudo...
PS: prometo partilhar convosco mais algumas destas pérolas da fotografia praiística portuguesa
5/26/2006
Só passei pra dizer
que sei que vocês passaram
que sei que tive novas visitantes e não retribui as visitas
que compreendo se nunca mais "olharem prá minha cara" ;-)
que sei que sou "pobre" e mal agradecida
que eu e o meu gajo ficámos realmente felizes por vocês, inúmeros e incontáveis (sobretudo os gajos) terem gostado da remodelação
que estou com imensas saudades da blogosfera, mas sem acesso no local de trabalho por censura (há que dizê-lo com frontalidade) nem em casa por falta de crédito na empresa-das-telecomunicações-que-nos-esmifra-a-guita- até-ao-tutano, que-não-respeita-a-lei-da-concorrência e que-até-cria-empresas-fantasmas-pra-fazer-falsa-concorrência-a-si-própria (qual é ela, qual é ela?), sem acesso dizia eu, portanto, nem de dia nem de noite, é difícil aparecer por aqui. Mas que tenho saudades, tenho. E quero dizer também às meninas recém-aparecidas que não me tomem por malcriada, tá bem? Eu apareço nos vossos cantinhos. Assim que conseguir um tempinho com o respectivo carcanhol pró respectivo acesso.
Eu vou ali e já venho
5/21/2006
Tcharam!!!
- Aí é pra pôr a azul.
- A azul? eh pá, mas isso agora é muito complicado. Porque é que não deixas como está, a laranja?
- Eh pá, porque não. Aí tem que ficar azul.
- Olha lá pus-te esta cena aqui.
- Eh pá, aí?! Hum, não sei se não ficava melhor ali daquele lado.
Etc, etc, etc. Mas, finalmente, cá está. Aceitam-se críticas (construtivas, claro, que esta cena deu muito trabalhinho ao gajo!), sugestões e elogios.
Fico à espera. Digam coisas.
5/16/2006
Aos meus inúmeros e incontáveis
Eu sei que têm passado por aqui à procura das novidades prometidas ou até mesmo de outras quaisquer. Acontece que a semana passada foi particularmente difícil e esta vai pelo mesmo caminho. Para ajudar estou de novo sem internet em casa. Estou mesmo. O assunto é para resolver em breve, muito em breve. Simplesmente as 24 horas dos dias têm-se revelado insuficientes para poder responder às várias solicitações. Estou a pensar seriamente em inscrever-me num curso de gestão do tempo. É trabalho, é mestrado, são as crianças, é a casa. E o pior é que praticamente não consigo dar conta de nenhuma das variáveis desta equação em condições.
Trabalho: Duas actividades (por enquanto) e nenhuma corresponde aos meus desejos, necessidades e formação. No tal emprego que tive de aceitar por ser uma "excelente oportunidade" é esperado que eu desenvolva uma actividade que não me agrada e para a qual não tenho formação nem preparação. Em compensação quando quero dar o meu contributo em áreas para as quais me encontro bem mais vocacionada, e nas quais existem reais necessidades, é só entraves. Embora já lá esteja há quase dois meses ainda não tenho computador nem material para poder trabalhar. Para cúmulo reina nesta instituição uma censura inacreditável.
A outra actividade deixa-me cada vez mais insatisfeita. A entidade patronal não tem qualquer respeito pelos seus colaboradores e enche desavergonhadamente os bolsos à pala dos atrasos nos ordenados e subsídios - começaram ontem a pagar os subsídios de Natal do ano passado, dá para acreditar??!! - exigindo cada vez mais a troco de cada vez menos.
A minha verdadeira profissão/vocação, aquela que eu realmente quero desenvolver, na qual eu desejo investir o meu tempo, a minha energia, a minha criatividade... está, mais uma vez entre parêntesis. Até quando?
Mestrado: Até agora entreguei um trabalho. Daqui a uma semana faz três meses que devia ter entregue o segundo. Seguem mais três que sinceramente não sei quando nem como os farei... e bem que gostava de ter mais tempo para dedicar a este aspecto da minha vida. Gosto de ir à faculdade, ler, pesquisar. Gosto de ser estudante. Mas ser estudante-mãe-trabalhadora é dose!
Crianças: Maravilhosas. Adoráveis. Absorventes. Cansativas. Divertidas. Chatas. Deliciosas. Egoístas. Precisam de mim, da minha disponibilidade, da minha dedicação. Do meu amor, claro, mas esse está sempre presente, mesmo que eu não esteja.
Ele gostaria que o pai e eu fóssemos com ele para todo o lado. Ir ao jardim, ir à praia, ir acampar, jogar à bola, jogar playstation, jogar xadrez, correr, sair, viajar, rebolar, convidar os amigos, fazer piqueniques. Ajudá-lo a fazer os trabalhos, ouvir os seus relatos de futebol, as suas histórias de futebol, as suas teorias sobre futebol, responder às suas questões físicas, metafísicas, científicas e existenciais. Gerir os ciúmes da irmã.
Ela gostaria que eu e o pai estivéssemos 24 horas por dia acoplados a ela. De viver ao nosso colo e dormir na nossa cama. Mamar e brincar. Descobrir o mundo. Aprender a falar, a gatinhar, a andar. Tomar banhocas, fazer cavalinho, barquinho, aviãozinho, ginástica. Comer papinha, sopinha e leitinho da maminha. Chuchar na chucha, na fralda, na roupa e na mão. Palrar, guinchar e gargalhar.
Ambos gostariam que não fízessemos mais nada na vida a não ser estar com eles. E por vezes nós também.
A casa. Ai a casa. Ai as obras que eram para ser feitas há oito anos atrás. Ai o chão do quarto a abater e tecto da casa-de-banho a desfazer-se. Ai as portas empenadas e as ombreiras descascadas. Ai a janela velha e podre e a janela nova e estragada. E a outra por duas vezes mal instalada. E a marquise imposta pelo condomínio cuja qualidade fica a anos-luz da que estava anteriormente. E os esgotos do prédio inteiro que cheiram mal dentro da minha casa-de-banho. E o quintal confundido com um sanitário público por todos os gatos da vizinhança. E a cozinha que precisava de um lava-loiças novo, de um fogão novo e de gavetas novas e inteiras. E já agora de armários novos e de uma máquina de lavar a loiça. E de uma chaminé nova e limpa até ao cimo do prédio. A cozinha que precisava de uma cozinha nova. A casa que precisava de obras há anos. A casa que precisava de uma casa nova.
E a roupa. E o jantar. E as compras. E a loiça. E os papéis. E os livros. E os alunos. E a escola. E a creche. E as inscrições. E as burocracias. E os impostos. E a Segurança Social. E as vacinas. E os médicos. E a natação. E o judo. E o yoga. E eu. E EU? E EU??
E EU???
PS: As novidades prometidas.
Acho que não está com nada deixar-vos nesta expectativa e ainda por cima não rende. As novidades não são nada de especial, e vão sair assim que a Internet for restabelecida lá em casa. E antes não porque é impossível. O nada como realmente tem andado (nos bastidores, claro) a ser sujeito a uma operação de cosmética que espero partilhar convosco muito brevemente. É só uma questão de look. Como sabem, faz bem a toda a gente ir ao cabeleireiro, comprar uma roupita nova e assim. Pois é o que vai acontecer a este vosso humilde bloguinho. Mainada. Coisa pouca, como vedes. Ou ireis ver. Talvez ainda hoje. Até jazzzz
5/10/2006
Elegia para uma Gaivota

Morreu no Mar a gaivota mais esbelta,
a que morava mais alto
e trespassava de claridade
as nuvens mais escuras com os olhos.
Flutuam quietas, sobre as águas, suas asas.
Água salgada, benta de tantas mortes angustiosas, aspergiu-a.
E três pás de ar pesado para sempre as viagens lhe vedaram.
Eis que deixou de ser sonho apenas sonhado
É finalmente sonho puro,
sonho que sonha finalmente, asas que dorme voos.
Canto dos pescadores, embalai-a! Versos dos poetas, embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumor das velas, embalai-a!
Há na manhã um gosto vago e doce de elegia,
tão misteriosamente, tão insistentemente,
sua presença morta em tudo se anuncia.
Ela via, sereninha e muito branca.
E a sua morte simples e suavíssima
é a ordem-do-dia na praia e no mar alto.
Sebastião da Gama
5/07/2006
O nada como realmente pede desculpa por esta interrupção...
Não, não tenciono atirar-vos mais areia prós olhos. Nem sequer cozinhar em lume brando. E também sei que isto dos 'teasers' tem um 'timing' (e que bem que fica dizê-lo em estrangêro, não acham, inúmeros e incontáveis?) para além do qual não é legítimo esticar-nos, sob pena de estes respeitáveis senhores e sobretudo senhoras se irem embora. Mas é que estou sem internet em casa. De modos que até a coisa ser restabelecida não vou poder dar seguimento às minhas mui nobres intenções.
Pelo facto, pedimos as vossas desculpas e esperamos contar com a vossa compreensão. Envidaremos todos os esforços para repor a normalidade dentro da maior brevidade. Até lá, estejam certos, inúmeros e incontáveis, de que continuaremos a nutrir por vossências grande respeito e amizade, quiçá carinho.
Por falar em carinho, aproveito para desejar a todas as mamãs que por aqui passarem um marabilhoso dia da mãe, na companhia dos bossos e de quem mais bos aprouber. Que me desculpem os visitantes do norte, mas acho que isto fica mais bonito assim, com chotaque lá de chima. Carago.
Até jazz.
Como diriam os gatos fedorento, voltem, que isto prá próxima é que vai ser giro
5/05/2006
... Foi sem querer!
Eh pá, e ficou tão giro que não me apeteceu tirar. Mesmo assim, as minhas (e sobretudo os meus) inúmeras (os) e incontáveis (leitoras, pois claro) merecem-me um respeito infindo, por isso me dei ao trabalho de explicar tudo bem explicadinho.
Não sei se perceberam que estou para aqui a encher chouriços, a bem dizer, à maneira dos nossos gubernantes (assim mesmo, que eu cá gosto de dizer gubernantes), do género: "quando a malta não cumpre as promessas, atira-lhes areia prós olhos, pode ser que pegue".
A ideia não é não cumprir, a sério. O problema é que não tenho bem a certeza de conseguir cumprir ainda hoje e tenho de vos entreter com alguma coisa, não é verdade?!
Afinal vocês, inúmeros e incontáveis (sobretudo os gaijos - são tantos que até fazem fila na blogosfera, só para aceder a esta humilde moradinha) são o motivo e a razão pela qual blogo e tenho de vos manter minimamente satisfeitos. Ou melhor satisfeitas.
Homens! Se andam por aí, manifestem-se, pliiiize! Eu gosto de vocês! A sério. Gosto de vos contar entre os meus inúmeros e incontáveis.
E dizem vocês: pronto, foi desta que a Calamity se passou de vez. Não é isso. Quer dizer, não é só isso. A malta de vez em quando também precisa de um devaneio, não? Ainda por cima à sexta-feira. À tarde. E não há meio deste raio-desta-semana acabar, cum catano!
Bom. Tudo isto para vos dizer que as novidades prometidas virão. Logo que possível. Em breve. Muito em breve. Vou ali e já venho.
PS: é verdade, o "relógio" deste blog está no horário dos Açores. Ou seja, uma hora menos que Portugal continental (a ler com voz de hospedeira da Tap - ou melhor, assistente de bordo, que eu cá não gosto de ferir susceptibilidades). Não é para enganar ninguém. Foi a única maneira que encontrei para publicar o post de 25 de abril ainda dentro do dia certo. Andei a manipular o sistema, não sei se estão a ver... Será que posso ir presa por isso? Bom, mas é só para não chegarem atrasadas a lado nenhum baseadas neste horário... daaaaah!
5/04/2006
Novidades
4/28/2006
Chamem-me o que quiserem
1) Os automobilistas portugueses em geral, a maior parte dos taxistas e dos condutores lisboetas em particular são inconscientes, desvairados e alguns até são uns assassinos. Muitos são/andam bêbedos mas até parece que não era este o caso.
2) O governo, a câmara e, em geral, as entidades que deviam 'ter mão nisto' tudo não têm, lavam as mãos, não protegem os cidadãos, não antecipam as tragédias, não asseguram as condições de segurança mínima para a vida das pessoas: como se pode compreender que num local como a Av. de Ceuta, a escola das crianças fique de um lado e o bairro onde moram as pessoas do outro sem que tenha sido prevista uma estrutura aérea ou subterrânea entre um lado e outro e IMPOSSIBILITADO que o atravessamento fosse feito de outra forma???
Concordo com isto tudo e provavelmente com outras coisas mais. O que não posso compreender é como é que os responsáveis por uma criança de oito anos sabendo isto a deixam entregue a si própria. Desculpem, e chamem-me o que quiserem mas NINGUÉM está preparado para atravessar uma estrada - e é disso que se trata - daquela perigosidade (estamos a falar de seis faixas de rodagem - seis). Nem mesmo um adulto. Como podem então deixar que aquela - e outras, oh meu deus, nem quero pensar - criança vá e venha sozinha da escola atravessando aquela estrada assassina??! Como puderam deixar??!!! Desculpem e chamem-me o que quiserem. Mas desta vez eu tenho pena daquele taxista. Que provavelmente nunca mais vai dormir descansado.
O meu filho tem oito anos e desde pequenino que aprendeu a atravessar as ruas. No entanto, ainda não vai sozinho para a escola que é bem perto e não sei quando irá. É que (eu não sei em que país vivem os habitantes da Quinta da Cabrinha na Av. de Ceuta mas) eu vivo num país em que crianças morrem por caírem em bocas de esgoto deixadas destapadas por negligência e por apanharem choques de alta tensão nos semáforos. Por enquanto vou continuar a acompanhar o puto para todo o lado. Chamem-me o que quiserem.
Descansa em paz, miúda Rafaela. Vieste sem dúvida parar ao sítio errado.
4/26/2006
Vinte anos depois, e porque a memória é curta, é preciso reafirmar com força

... e vai assim em francês porque não consegui arranjar nenhum com um tamanho digno em português, nem mesmo em inglês. Se soubesse como se diz em russo...
4/23/2006
Banda Sonora de uma manhã de domingo
De como gerir a irritação saudavelmente quando eles – os gaijos, claro! - nos tiram do sério *
Ou ainda
Quem canta, dança, salta e rebola seus males espanta – e os vizinhos também!
(a colocar em altos berros e com direito a espectáculo total enquanto ela, sentada na sua cadeirinha, me olha com um ar vagamente irónico e francamente divertido - há quem já nasça a saber de tudo, não é gaijinha pecanina?!)
Beck – Looser
Vaya con Dios – Girls don’t cry for Louie
Ella Fitzgerald & Louie Armstrong – Dream a Little Dream of me
Humanos – Vou Viver (aqui admito que houve uma certa quebra; pelo menos DJiingamente falando, a transição não foi das melhores…)
Janis Joplin – Me and My Bobby Mc Gee
Chico Buarque – Amanhã vai ser outro dia (preparar o leite com chocolate do gaijinho pequenino)
Sérgio Godinho – Etelvina
Skunk – Jackie Tequilla (mudar a fralda cheia de merda da gaijinha pequenina - “…vaca cadela macaca gazela/linda toda toda linda ela/toda a beleza se reconhece nela…”)
Gilberto Gil – Vamos Fugir (eu e ela, claro!)
The The – Uncertain Smile
James Brown – Sex Machine ("... I'm feeling like a sex machine..." - é mentira, mas não faz mal – ninguém precisa de saber)
David Byrne & Marisa Monte – Waters of March = Águas de Março – versão Red Hot + Rio
(“... é a lama é a lama…”)
Maria Bethânia - Tigreza
Terence Trent d’Arby – Supermodel Sandwich
Lou Reed – Sweet Jane – versão Rock’n’Roll Animal (à falta da versão Cowboy Junkies)
Aretha Franklin – Think (à falta de R.E.S.P.E.C.T)
Caetano Veloso – Samba e Amor ("... não tenho que prestar satisfação")
Quando for grande quero ter um programa de rádio!
* dedicado aos meus inúmeros e incontáveis leitores do sexo masculino e ao santinhos que vivem com as minhas amigas bloguistas – sem pinga de malícia, mas, admito, com alguma ironia. E, uns e outras, desculpem qualquer coisinha, sim???!!!
4/22/2006
O Estado da Nação (ou o resto do mundo burning)
Fui ao Google à procura e encontrei o que procurava: as palavras que me têm estado na cabeça o dia todo, mas como já passaram doze anos (sim, 12! é verdade!), não conseguia lembrar-me com exactidão. Em certas circunstâncias, acho que eu também sou partidária da lavagem cerebral! (nº 5)
Portugal Burning - Capítulo 3
Naquele Domingo de Páscoa, a igreja estava repleta de gente, uns esperando um sinal divino que fizesse renascer a esperança - numa capital assolada pela peste - e outros, porque convinha, convertidos à força que eram por via do "Édito de Expulsão" datado de uma década mais cedo e que tratava de excluir os judeus de uma sociedade onde eles se tinham tornado demasiado importantes para o reino. Antes mesmo da instuição do "Santo Ofício", milhares tinham então sido obrigados a baptizar-se e a agir como "bons cristãos", fosse lá isso o que fosse.
Estavam pois todos na Igreja, uns esperando um milagre, outros para serem vistos pelos primeiros.
Foi então que ele se deu, o milagre. Pelo menos houve quem assim o visse. Conta quem assistiu, que eu na altura ainda por cá não andava - excepto encarnação anterior de que francamente não duvido mas também não me lembro - conta quem assistiu, dizia eu, que a determinada altura, um crucifixo iluminou-se inexplicavelmente. Vá então de clamar por milagre. E eis senão quando o herege, o blasfemo, o cristão-novo ousou colocar outra hipótese. Não teria sido antes o sol, que, entrando por uma fresta, iluminara o símbolo religioso? Bom, ok, provavelmente, o imprudente terá sido um pouco mais afirmativo. Talvez até tenha dito algo como: "Eh pá, meus senhores, desculpem lá, mas aqui não há milagre nenhum. Então não se está mesmo a ver que é um raio de sol??!! Ora olhem lá ali para aquele buraco! Estão a ver??"
Vamos lá então admitir que foi assim que as coisas se passaram. Pois bem. Tenha lá sido a forma como o desgraçado falou, o certo é que foram as suas últimas palavras. "Mal proferiu a contraproducente 'blasfémia', o povo caiu sobre ele e agrediu-o barbaramente até cair inanimado. Prostrado no Largo de São Domingos, foi identificado pelo irmão, que se debruçou sobre o seu cadáver e gritou lancinantemente: 'Quem matou o meu irmão?!'. Acto contínuo, foi igualmente executado"* pelo povo em fúria com a cumplicidade de dois frades dominicanos. Todos juntos, acenderam uma fogueira na qual queimaram os dois irmãos e, proferindo apelos inflamados e raivosos, espalharam-se pela cidade em busca de mais vítimas do seu ódio destruidor. Gritavam: "Heresia, Heresia! Destruam o povo abominável!"
Ao longo de 3 dias de pilhagem e carnificina, apanharam e mataram quatro mil cristãos-novos, entre homens, mulheres e crianças que queimaram nas várias fogueiras entretando acesas por toda a cidade.
Lisboa, 19 de Abril de 2006, 20h00
Respondendo ao apelo pacífico lançado via blogosférica e não só, meia-dúzia de pessoas ainda se encontravam no Largo de S. Domingos, depois de uma cerimónia discreta, de homenagem aos mortos de 1506. Trata-se tão-somente de acender umas velas para que estas simbolicamente "iluminassem a memória". Cerimónia essa que, diga-se, já tinha, antes mesmo de acontecer, levantado uma inacreditável polémica na blogosfera e não só - vá-se lá compreender porquê, há quem se sinta incomodado com quem teima em perpetuar a memória dos seus ancestrais, mesmo que o faça em silêncio, sem incomodar ninguém, como há quem se sinta incompreensivelmente incomodado com quaisquer manifestações culturais que não sejam as suas, pobres coitados!
Já quase toda a gente se tinha ido embora. E a imprensa também. Os rapazes queriam ter visibilidade mas saiu-lhes o tiro pela culatra. Mesmo assim não se coíbiram de fazer as suas tristes figuras. Vestidos a rigor com os seus trajes de ódio e intolerância ignorante e imbecil, lá foram para o Largo de S. Domingos gritar palavras de ordem em alemão, aquelas mesmas que há sessenta e tal anos ajudaram ao tal holocausto que agora há quem se atreva a afirmar que nunca existiu. Em alemão, os excrementos. Que no seu suposto "orgulho" nacional, nem se lembraram de palavras na nossa língua que lhes preenchesse a ânsia maléfica.
(continua)

