1/31/2008

Carta

Ao Exmo Senhor que se Encontra lá nas Alturas
(creio que no 457-C)

Venho por este meio solicitar-lhe se digne enviar-me alguma iluminação divina que não lhe faça falta ou, na impossiblidade de o fazer, que encarregue um dos seus angélicos funcionários de entrar em contacto comigo ou ainda, caso também esta solução viesse causar transtorno, que me faça chegar documentação explícita no sentido de esclarecer-me sobre a situação que passo a expor:

Desde que me lembro de ser gente tenho tentado ser gentil e justa para com os meus semelhantes e inclusivamente para com alguns dos meus diferentes. Refiro-me a cães, gatos, tartarugas e borboletas, enfim, à maioria dos animais nossos amigos, embora deva confessar que ainda não atingi o nível de progresso espiritual que me permita optar pelo vegetarianismo a tempo inteiro. Admito também ter, em noites de Verão, atentado contra a vida de uma outra melga que insistia em sugar o meu tão precioso líquido sanguíneo, tão necessário à minha sobrevivência, para além de privar-me das minhas tão necessárias horas de repouso, essenciais ao meu residual equilíbrio psicológico.

Contudo, e apesar desses episódios deploráveis da minha existência pelos quais desde já me penitencio, esforço-me todos os dias para evoluir tanto no meu âmago quanto na relação com o que me rodeia e penso sinceramente que não me tenho portado muito mal. Diria também que, mesmo em tempos em que não era tão atinadinha, nunca agi de molde a prejudicar quem quer que fosse e se porventura alguma vez o fiz, foi certamente sem intencionalidade, fruto de alguma imaturidade, inconsciência, ou incapacidade de medir as consequências dos meus actos. Estou certa porém, de que jamais causei dano de maior. A cada vez que me comportei de forma leviana, irresponsável ou inconsequente, fui invariavelmente eu e só eu a arcar com os prejuízos das minhas acções, exceptuando talvez uma ou duas vezes em que magoei os que mais amava, como os meus pais, mas acredito que todos os filhos o fazem, num momento ou outro do seu percurso pelos tortuosos caminhos do crescimento. Estou em crer que o Senhor não iria querer acertar contas comigo devido a um ou outro pequeno desvario próprio da idade, que eles mesmos já me perdoaram há décadas atrás e pelos quais julgo já ter pago a minha dívida.
É por tudo isto, Senhor, que venho, com toda a humildade e respeito que devo a V/ Alteza Majestosa, perguntar-Vos, o que raio fiz eu para merecer isto?

A resposta, como já referi acima, poderá ser-me facultada pela via que V/ Eternidade Divina julgar mais apropriada, pois, modéstia à parte, V/ Bondade Celeste logrou brindar-me com apreciável QI, pelo que penso ser capaz de atingir mensagem de carácter subliminar, caso V/ Essência Etérea opte por esclarecer-me via sonho, visão ou viagem astral permitindo insight sobre a vida anterior, dado que me parece evidente, dados os factos expostos no parágrafo anterior, situar-se aí a razão para este meu Karma, o qual me vem acompanhando já há umas décadas valentes.
Agradecia também me fosse outorgada, naturalmente na ocasião considerada adequada por V/ Altura Inatingível, informação relativa ao prognóstico da situação acima exposta. Trocando por miúdos: Até quando, Senhor, durará este meu castigo?

Sem mais de momento, na expectativa da V/ Mui Prezada e Sempre Oportuna resposta

Subscrevo-me com todo o respeito, consideração e estima que me é possível na minha posição de mero e insignificante ser humano e pedindo desde já as mais humildes e esmeradas desculpas pelo tempo que possa ter usurpado a V/ Elevadíssima Agenda

Calamity Jane

1/27/2008

Posta à mão (ou elocubrações desmesuradamente longas às quais os inúmeros e incontáveis devem evitar a todo o custo lançar-se

a não ser que se considerem inelutavelmente tão desvairados quanto a sua desvairada autora. Ós pois não digam que não avisei!)

A posta you're about to read (adoro esta expressão, estar 'about to', e qualquer tradução que lhe tentasse substituir resultaria, quanto a mim, sempre aquém do original) foi escrita duas vezes, ou seja, foi primeiro escrita em papel (diga-se de passagem que sentada diante de uma paisagem magnífica, sobre uma relva verdejantemente fresca e sentindo a carícia morna de um sol delicioso) de modos que vou já avisando os inúmeros e incontáveis que, se chegaram até aqui, seria, no mínimo, simpático que não se deixassem assustar com o comprimento da mesma (e, já agora, nem pelo das frases que a compõem, com as quais tenciono desafiar Saramago a um despique assim que o senhor melhore e saia do hospital...), uma vez que tive de me dar ao trabalho de a reescrever inteirinha no computador (assim como aos múltiplos acrescentos que foram entretanto surgindo na minha insuportável mente hiperactiva), sendo que o seu primeiro 'parto' representou para mim um exercício bastante intenso e diria até de teor quase inovador, já que não o fazia há largos meses. Refiro-me ao de escrever à mão.

Escrever textos, claro está, pois que todos os dias utilizo todas as canetas que me possam aparecer pela frente para escrevinhar nos mais diversos suportes números de telefone, endereços de email, listas de faltas, recados para mim própria, lembretes e apontamentos vários, dos quais resultam uma infinidade de papéis os quais, por sua vez inundam a pouco e pouco a minha existência e, um belo dia, acabarão, eu sei, por me submergir, se tivermos em conta que sou absolutamente incapaz de os deitar fora, quer bem se trate de uma lista onde se encontram rabiscadas as palavras "cebolas, papel higiénico, leite do dia, yogurtes naturais" (ou melhor "cebs, pap hig, leite dia, yogs nats), quer de um poema que representou o que de melhor fiz nas últimas décadas e que, por incrível que pareça, permanecerá talvez guardado ao pé da referida lista de abreviaturas de compras para fazer no supermercado antes que a minha casa e a minha família resolvam expulsar-me por incomprimento até ao dia, quiçá daqui a dez anos, em que eu resolva arrumar aquele específico monte de papéis do qual serei eventualmente capaz de colocar no papelão as contas da água e luz e mesmo assim só o farei se me aperceber que, fossem elas processos judiciais por crimes graves já teriam prescrito. (ufa! que até a mim me canso!)

Escrever à mão. À medida que o tempo passa verifico que cada vez menos o faço. Algo que pratiquei sempre com uma frequência incerta (embora desde sempre me lembre a escrever por dentro da cabeça, escrever sempre, a andar na rua, a conduzir o carro, nos transportes públicos, na fila da repartição, no jardim com os putos, no elevador, onde quer que seja) mas que mesmo assim ia fazendo, fui fazendo sempre, embora de forma diferente daquela - rara - em que o faço nos dias que correm.

"Dias que correm". Detenho-me por momentos nesta expressão e apercebo-me de repente onde reside o seu verdadeiro significado, talvez o motivo pelo qual hesitei antes de o escolher em detrimento de outro sentido aproximado como "na actualidade" ou "hoje em dia" ou mesmo "presentemente". Presente mente... "Presentemente" também mereceria uma aprofundada reflexão. Dedicarei noutra ocasião mais atenção a ambas as formulações. Ou talvez não.

Retornemos, pois, à questão que me ocupava no presente momento (olha, outra!, se bem que não é nada a mesma coisa. Adiante).
Dizia eu então - se é que nesta altura do campeonato ainda resta um único de vós, inúmeros e incontáveis, a passear os olhos estafados da esquerda para a direita e de cima para baixo, exasperando-vos na espera inglória do momento, quem sabe em vão pois poderia muito bem nunca chegar, do momento, pois, em que aqui a desvairada da Calamity se decida a ir directamente ao assunto, ou deveria eu antes dizer, a ir ao assunto tout court, já que o advérbio "directamente" representa aqui o contra-senso em todo o seu esplendor - dizia eu então para os sobreviventes desta mui cansativa e interminável prosa, que hoje em dia raramente me dedico a escrever à mão, o que, definitivamente, é um exercício substancialmente (de substância, mesmo) diferente de escrever num teclado de computador. E apercebo-me de que o faço de forma também ela diferente. Diferente do que fazia antes, digo. Antes do blog.
À pressa, gatafunhando. Não desenhando as letras com algum esmero (embora sempre tenha tido uma caligrafia bastante grave) como o fiz ao longo de muitos e muitos anos, gostando de escolher para o efeito a caneta e o papel. (Mesmo que, em caso de pânico, qualquer coisa servisse para o efeito, e muitas vezes tive de lutar contra o espaço exíguo deixado livre por um extracto bancário ou depois de ocupados ambos os lados de um guardanapo de papel, ou ainda, já cheia a prata do maço de tabaco assim como as margens do pacote...).
Que beleza, um caderno todo preenchido de letras, letras escritas com amor, com raiva, com tinta feita de emoções. Pensamentos que ganham dimensão, textura gráfica!
E, por outro lado, quantas promessas nas páginas virgens de um caderno em branco. Com linhas, quadriculado, naquele magnífico papel 'Seyès' dos franceses, semelhante a uma partitura, pronto a ficar repleto de maravilhosas palavras, prodigiosos verbos, advérbios, gerúndios e particípios, todos ligados entre si por divinas partículas, conjunções, preposições, e artigos. E pontos, muitos, muito pontos. Pontos de exclamação, de interrogação, reticências e ponto e vírgulas. Caracteriais ponto e vírgulas. Ou será pontos e vírgulas?

Postar para o papel antes de o fazer para o teclado. Recuperar aquela noção de escrever para si próprio. Guardar na gaveta os cadernos cheios de mim e nunca os revelar. Mantê-los fechados, tinta e papel coladinhos num casamento daqueles à mete-nojo, sempre tão juntinhos, tão íntimos que nunca nada nem ninguém os pode sequer adivinhar.
Que invenção fabulosa, esta possibilidade de escarrapachar as divagações que, durante séculos a fio, permanecerem no recato sepulcral dessas folhas agrupadas, encerrando entre si a própria essência dos seus autores. E, ao mesmo tempo, que perda irreparável se, de repente, deixássemos de os usar, os tais cadernos paulausterianos, de cuja maciez, densidade e aparência podia depender o teor de um texto, o seu âmago. Um pouco como os poemas gráficos, uma obra tridimensional, por assim dizer… Não estaremos nós paradoxalmente a condenar os nossos escritos a uma existência puramente ‘no plano’ quando os lançamos para a aparente multidimensionalidade da blogosfera?

(to be continued)

1/22/2008

A minha blogosfera é melhor que a tua!

Hoje acordei com esta frase na cabeça. Imediatamente soube a quem ela se destinava. Claro que não era para nenhum de vós, inúmeros e incontáveis! A vossa blogosfera é igual à minha. Uma caixinha de surpresas. Recheada de pessoas bonitas, que foram entrando na minha vida devagar mas hoje ocupam um espaço real, palpável e que transcende largamente as fronteiras do virtual (seja lá o que isso for - terá a virtualidade fronteiras?). Mas a blogosfera não pára de me surpreender. A sério. E sempre pela positiva. Não consigo lembrar-me de uma única pessoa que tivesse conhecido por via deste universo fantástico e que me tivesse desiludido. E mesmo quando, por motivos vários, não entro em contacto directo com os bloggers, fico sempre pasma com o espírito de partilha, solidariedade e entreajuda com que me deparo sempre que, por algum motivo, recorro à blogosfera. Por vezes, não posso (ou não quero) dizer nada, mas fica a roer-me o bichinho. É um grilo cá dentro que diz: "Vá, denuncia-te! Diz quem és! Diz que pertences!". Pertença. Fazer parte de. É isso que a minha blogosfera me faz sentir. De certa forma possuímos algo em comum, que é só nosso e que nos une.
Da minha blogosfera sempre recebi ânimo, calor e carinho. E até a blogosfera que não sabe que é minha me correspondeu quando solicitada com uma resposta cordial, agradável e simpática, no mínimo.
A minha blogosfera é um mundo novo. Talvez seja este o início da Utopia. Uma terra sem amos, a Internacional...

De facto, a minha blogosfera, sôdona Margarida Rebelo Pinto, não tem nada a ver com a sua. A Calamity nunca poderia ter escrito, como a senhora:
"Os blogues são um território de guerrilha suja, protagonizada pelos terroristas da Internet"
Talvez seja por isso que a Calamity ainda não passou da cepa torta, e a senhora colecciona best-sellers. Mesmo assim, prefiro ser a Calamity. É que, sabe, sôdona Margarida Rebelo Pinto, a minha blogosfera é mêmo, mêmo, bem melhor que a sua, sei lá!

Sim, eu sei que isto já foi há uns meses largos, e até suscitou posta na minha blogosfera (desculpa, Azulinha, não consigo colocar o link exacto, mas, para quem lá for, é a 4ª posta, a contar de cima...), mas, o que é que querem?.. só hoje me ocorreu... Desculpem lá se já vou atrasada...

1/15/2008

Espalhem a notícia

Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse

Divulguem o encanto
do ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher bonita

A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
o ventre de que falo
como um riotransbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou

Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume,
foi um augúrio de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
bonita

Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescenteda sua lavra
que a bom entendedor meia palavra basta,
é só adivinhar o que há mais os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
bonita

Sérgio Godinho
in Canto da Boca

Bem Vinda Princesa Clara

1/14/2008

O Segredo

Admito que sou cusca. Sempre fui. Por natureza e também por (de)formação profissional. Herdei a característica do meu pai e já a transmiti ao meu filho. Safa-me o facto de não usar os conhecimentos obtidos por meios pouco ortodoxos para prejudicar ninguém e até devo ressalvar, em abono da verdade e da minha pessoa, que, por vezes, me vejo bem à rasca com informações que me vêm parar às mãos (ou aos ouvidos, ou ainda, aos olhos) e que não era suposto eu saber. Acresce que tenho uma vocação inata para esbarrar de nariz nas coisas mesmo sem andar à procura delas.

Adiante. Sou cusca, portanto. E como tenho uma relação de obsessivo-compulsiva com a leitura, tenho uma mania muito feia que é ir nos transportes públicos a partilhar as letras dos vizinhos mais próximos sem para tal ter sido convidada. Qualquer coisita serve, desde os pasquins gratuitos até à 'Crítica da Razão Pura', mesmo que na sua versão original - e isto apesar de não falar nem escrever mais do que quatro palavritas na língua de Kant.

Vem isto a propósito do meu curto trajecto de autocarro de hoje. A velhota teria pelo menos uns oitenta anos. Trazia nas mãos um livro forrado a papel de embrulho de boa qualidade, acastanhado. Folheava-o nervosamente de trás para a frente e da frente para trás. De vez em quando detinha-se numa página e lia (?) um pouco. Depois, olhava para os lados - e sobretudo para mim, pois já tinha percebido, ou pelo menos pressentido da minha tendência para Mata-Hari da literatura alheia - e reforçava as suas manobras de diversão. Tudo, menos deixar que fosse quem fosse se apoderasse de uma palavrita sequer do seu 'Segredo'. Escusado será dizer que não tinham passado dois segundos sequer até que desvendasse o título da obra que a senhora tanto tentava esconder. O que deu mais ânimo à - parafraseando a Cool Mum num post recente em que esta última citava a Vieira do Mar - cabeleireira intrometida que existe em mim. Mas a minha vizinha não permitiu que decifrasse mais uma vírgula. Queres saber mais? Vai comprar! A Rhonda Byrne agradece.

1/09/2008

Um dia

ainda hei de aprender a preservar-me de certas e determinadas agruras. Agruras, sim. Não me surge vocábulo mais adequado ao sentimento a que me refiro. Se há algo que me irrita na minha pessoa é o facto de deixar que certos assuntos me tirem o sono. Literalmente. Sou aquilo que se chama uma esponja. E, por mais que me auto-eduque, repetindo a mim própria até à hipnose frases como "não te deixarás atingir por veneno alheio", "não sofrerás por quem não vale vinte e cinco tostões em moeda nova" (sim, porque em moeda antiga, sempre vale a relíquia, certo? agora tentem lá converter vinte e cinco tostões em aéreos, a ver o que a coisa dá...), a verdade é que a matéria de que sou feita me torna absolutamente susceptível, qual terra fértil na qual poderá nascer sem ser semeada a planta mais daninha e em dois tempos ocupar todo o espaço, pondo em risco as espécies protegidas mais belas e preciosas que tanto trabalho haviam dado a brotar.
Liberto esta posta na esperança de que os sentimentos desagradáveis e pensamentos carregados de más energias que me têm inundado o campo nestes dias se dissolvam na imensa blogosfera, transitem para o espaço intergaláctico, se transmutem e apenas regressem sob a forma de centelhas multicolores de amor e bem-aventurança.
Inúmeros e incontáveis: se souberem de algum curso que ensine as esponjas a transformar-se em espelhos, avisem a Calamity, tá?..

1/02/2008

Bom ano para todos

O melhor "postal" de boas festas do século (até agora...)














12/27/2007

É hoje!!!

Em Alcântara, Rua Prior do Crato, entre o BES e o Paraíso de Alcântara, frente ao Palácio. Chama-se Brilha Tejo e está marcado para as 20h30. Melão, Ck, Mocho, e etc, etc, estamos à espera da vossa confirmação. Digam coisas!!!

(esta mensagem autodestruir-se-á dentro de algumas horas...)

12/21/2007

Oh! Oh! Oh!

Prestes a tirar uns bem merecidos dias de semi-férias, no meio da leva de aniversários que constitui o mês de Dezembro no seio dos calamitosos - ah, pois é, inúmeros e incontáveis, a vossa Calamity fez 19 anitos (em cada perna, claro!) ensanduíchada entre o filhote que fez 10 e a filhota que faz 2 amanhã... - não quero deixar de desejar aos inúmeros e incontáveis um santo e feliz Natal e relembrar a super-farra com janta, ceia e pequeno-almoço incluídos marcada para a próxima 5ª feira, dia 27 numa cervejaria lisboeta (isto, claro, é o ponto de partida...). As inscrições estão quase quase a fechar, por isso toca a marcar os vossos lugares, dizer quantos são e bute aí córtir à grande e à lusitana. Aqui ou em calamityjanerealmente@gmail.com, tudo a cão-correr, faxavori!

12/14/2007

A revolução

Há dias fiz um teste (The Political Compass - desculpem lá mas não consegui gravar como deve ser para reproduzir aqui e repetir o teste ia demorar mais do que o que posso hoje) que encontrei no tasco da Tuxa. Destinava-se a situar-nos do ponto de vista político (esquerda/direita), económico e social. O resultado obtido indica que me situo à esquerda de Nelson Mandela e de Gandhi, num ponto para lá de qualquer juízo ou noção do mundo real. Aliás, o mais provável a seguir a esta posta é que metam numa camisa de forças e me internem compulsivamente numa unidade psiquiátrica de alta segurança.

Uma das perguntas colocadas no referido teste era qualquer coisa como "Concorda que a terra seja algo que se possa comprar e vender?". Pois bem, inúmeros e incontáveis, a verdade é que, embora sonhe com o meu quinhãozinho, onde possa um dia cultivar umas batatas e uns tomates e passar uma velhice mais tranquila, ouvindo a brisa agitar as folhas do arvoredo e observando as mudanças subtis dos tons de verde e castanho ao ritmo das estações, a resposta é "Não, não concordo". Como os índios, acredito que a terra não nos pertence. Se o sol, quando nasce é para todos, também a terra, a água, o ar e o fogo. Porque, para ser algo que se compra e vende, é porque pertence a alguém. E se pertence a alguém é porque esse alguém a comprou ou a herdou ou a roubou a outrem. E antes disso, o mesmo. E por aí afora. Mas um dia, teve de ter havido um tipo que chegou ali e disse: "Isto aqui é meu". E com que direito, pergunto eu?

Tenho andado com uma série de questões a incomodar-me o neurónio. Eu sei que a todas estas angústias não serão alheios o Inverno, os dias curtos, o frio. Mas regularmente assola-me um pensamento: a geração anterior à minha fez alguma coisa para mudar o mundo. Mesmo se deu na merda que todos sabemos. Mas ao menos, eles mexeram-se por algo em que acreditavam. Tá bem que hoje, estão quase todos sentados, acomodados. Mas, e nós??? Os que hoje têm 30, 40? O que fizémos nós? O que estamos a fazer? Que mundo é este que estamos a deixar aos nossos filhos? Não podemos fazer nada? TANGA! TANGA! TANGA!!!

O senhor Óscar Niemeyer faz 100 anos amanhã. No fim-de-semana passado deu uma entrevista ao Diário de Notícias. No final da mesma, dizia algo como:

“Acredito na revolução (...) O socialismo está dentro do coração das pessoas e não acaba de um dia para o outro. A revolução na União Soviética talvez tenha sido um acidente de percurso. O que é justo é um Estado correcto amando o povo, procurando criar um clima normal, de felicidade geral (...)”

O mesmo senhor diz também que a vida é um sopro. E eu, que acredito que temos uma missão na vida, caso contrário não sei bem o que estaríamos aqui a fazer, digo-vos, inúmeros e incontáveis: se há quem chegue aos 100 anos a acreditar na revolução, no amor e na felicidade, então temos de acordar rapidamente para fazer a nossa parte. A vida é um sopro, sim. Um sopro divino que tem de nos levar onde nós temos de ir. Fazer o que temos de fazer.

É possível mudar o mundo porque eu quero.

12/07/2007

Tá tudo doido???

O Presidente do Banco Central Europeu defendeu há dias, num simpósio em Berlim o fim dos salários mínimos obrigatórios. Afirma o iluminado senhor, de seu nome Jean Claude Trichet - refira-se a título de curiosidade que 'tricher' significa em francês 'fazer batota - que os mesmos impedem a criação de postos de trabalho. Boa, senhor Trichet! Eu se fosse a si levava a coisa mais longe. Bute nessa! Inúmeros e incontáveis, o desafio é claro: vamos todos escrever à Comissão Europeia e defender o regresso da escravatura. Se formos muitos, muitos, mesmo, pode ser que a malta consiga. A bem dizer já esteve mais longe. Bem mais longe. Cerca de 5 décadas antes da Revolução Industrial...

Uma senhora cujo nome não foi divulgado resolveu doar o seu corpo Faculdade de Medicina de Coimbra. Uma bela atitude, a bem do avanço científico, penso eu de que. Ora, a referida senhora faleceu sexta-feira passada, no Instituto de Oncologia daquela bela cidade. Acontece que o referido Instituto tinha a câmara frigorífica avariada. A faculdade estava fechada e ninguém conseguiu contactar com os responsáveis da instuitição universitária. Por sua vez, o Instituto de Medicina Legal recusou-se (!!!) a guardar o corpo. Resultado: quando, na 2ª feira, chegou ao IPO o técnico da Faculdade de Medicina encarregue de recolher o dito corpo, este já não se encontrava em condições para ser usado com fins científicos. Ora! Qual é o problema???! Não dá para perceber. Lá porque o cadáver tinha três dias, não o podiam utilizar?! Estes cientistas têm cada uma! Precisavam de um corpo, não era? O corpo estava morto, certo? Então! Morto por morto, o que é que isso interessa...

O Tribunal Judicial de Vila Real resolveu 'devolver' à mãe biológica a menina Iara, de 6 anos, que vive desde os 25 dias de idade com os 'pais afectivos', a nova expressão agora em voga para designar aqueles que são pais embora não adoptivos, neste caso porque se trata de uma família chamada 'de acolhimento'. Refira-se que, quando tinha cerca de 2 anos, a menina chegou a a ser entregue pelo Tribunal de Alijó à mãe biológica, toxicodependente. Pouco tempo depois foi o próprio companheiro desta que devolveu a menina aos pais afectivos, por se aperceber da incompetência desta em cuidar da filha. Iara sabe da decisão judicial: "Fartou-se de chorar, não quis ir à escola e fez chichi nas calças"... Os pais afectivos não sabem se ainda passará o Natal com eles, já que poderá ser retirada à família de acolhimento a qualquer momento. O motivo de tão nobre decisão prende-se com a alegada recuperação da mulher que há seis anos a deu à luz.
Eh pá malta, esta nem sequer consigo comentar.

Só vos digo, inúmeros e incontáveis.
Ponham-se a pau.
Lembrem-se daquele poema de Berthold Brecht:

Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso,
também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.



Inúmeros e incontáveis: desejais que continue esta minha leitura dos jornais da semana?

PS: As inscrições para a janta continuam abertas...

12/05/2007

Todos à janta interbloggers de 27 de Dezembro

Vai ser em Lisboa.
Vai ser muita louco.
Vamos ser mais cás mães.
Vão inúmeros e incontáveis amigos do 'Nada...' mas a janta foi ideia da Chiqui (amanhã linko-a assim como a outros dos inúmeros e incontáveis já confirmados e por confirmar a ver se se decidem rapidamente) e eu sei que ela não se vai importar que eu estenda o convite a todos os inúmeros e incontáveis. Aliás, qualquer inúmero e incontável da Chiqui é um inúmero e incontável meu e se ela concordar, o vice-versa também é válido.

Desculpem se fui confusa mas estou quase a fazer tilt, de modos que vou já pra casa jantar com os putos que é coisa que não faço há mais de três quinze dias. Ah pois é.

Mais pormenores amanhã. Estão abertas as inscrições

11/29/2007

FMI (Foi Muito Intenso) ou mais uma Crónica da Outra Vida

Foi em 1981. Eu tinha 11 anos. Tento em vão que o meu cérebro digira esta realidade assustadora. Passaram 26 anos. Não diria que parece que foi ontem. Mas anteontem, certamente. Quando me lembro ainda me arrepio. Claro que a possibilidade de ouvir a gravação (daquilo de que estou a falar, claro) permite refrescar a memória das células. Embora conste que já não são as mesmas. Mas isso é outro assunto. Portanto, adiante.
Foi, pois, em 81. Aqui mesmo ao lado, no Teatro Aberto, na Praça de Espanha. O dito teatro não ficava, como hoje, na Avenida Gulbenkian, como quem vai para a Av. de Berna, mas antes do outro lado da praça, como quem seguisse em direcção ao Hospital de Santa Maria. Isso agora também não interessa nada, como diria a Teresa Guilherme, mas os inúmeros e incontáveis já sabem como sou e o quanto gosto de me perder em pormenores, tipo janela barroca e o que vale é que depois a janela abre e fecha e veda na mesma, e dá para uma qualquer paisagem e, a bem dizer, podia dar-me para pior, que era esquecer-me ao que ia, ou neste caso vinha.
Os meus pais sempre me levaram para estas coisas, e diga-se de passagem que era mais por influência do meu pai que da minha mãe.Tratava-me como se eu fosse mais crescida do que na realidade era e agradeço-lhe o ter-me assim proporcionado momentos que trago comigo, agarrados à pele e aos ossos e que fazem parte de mim, indissociáveis do que sou, ou pelo menos julgo ser... Naquela noite, o programa era o espectáculo do José Mário Branco. 'SerSolid(t)ário'. Não era imensa, a audiência, que o teatro não levava uma multidão. Mas era suficiente para encher a sala e formar um todo,do qual se desprendia sopro, consistência, vibração. E sei que, apesar dos meus 11 anos, aquilo que senti a determinada altura não foi exclusivo meu, da minha ingenuidade, da inocência que trazia, muito inferior, diga-se, à de muitos 11 anos que por aí vejo. Não sei se feliz, se infelizmente, mas também isso são outros assuntos, e tantos haveria para trazer ao 'Nada...'...
E 'às páginas tantas', diz assim o Zé Mário: "Vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não seja muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam já não ser muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto. Chama-se FMI.Quer dizer: Fundo Monetário Internacional. Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos... É o internacionalismo monetário..."
E foi assim que assisti à primeira (e única??) apresentação (demorei um pouco a achar esta palavra e, embora não me pareça a ideal para definir o que foi 'aquilo', talvez seja a única que eu consiga achar neste momento, por isso aqui ficará a não ser que entretanto me surja outra mais adequada...) ao vivo desse texto e até hoje, a cada vez que me lembro, sinto-me grata. E muitas outras coisas, mas não sou menina para repetir adjectivos, apesar do meu já bem conhecido pendor para o alongamento verbal. E sei que, naqueles longos minutos, as confusas e variadas emoções que emergiram no meu ser foram de uma intensidade brutal e inesquecível. Sei também que algumas delas foram partilhadas com a restante plateia. O às tantas não saber se o homem 'se tinha passado' (nessa altura não se usava tal expressão), e se aquilo faria mesmo parte do que estava previsto. O sentir que estava ali a mais, frente a um homem com idade para ser meu pai que se estava a 'desmanchar' diante de 300 pessoas, para lá de todo o pudor, de toda a contenção. O riso e o espanto. A desmesura.

Ando há dias com este poema fabuloso no ouvido. Passaram 26 anos(!!!). 28 desde que foi escrito. Mas mudássemos-lhe nomes e pormenores e poderia ter sido escrito ontem. Anteontem. Amanhã.

Inúmeros e incontáveis. Se não conheceis, lede. E ouvide. Se não conheceis, idem. (Espero que esteja em óptimas condições. Não tive ocasião de ouvir tudo, que ainda me punham na rua por acto subversivo no local de trabalho. E já se se sabe, o precariado tem de manter low profile. Very, very low...)

Acrescento: Ando a cozinhar esta posta há uma semana. E o FMI às voltas na minha cabeça. Sempre e sempre. Mas da posta perdeu-se muita coisa pelo caminho. Vou-me lembrando, à medida que leio e releio o texto, que tem algumas imprecisões em relação à gravação. Pedaços que tomam um significado cada vez maior. Como: "(...) Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!"(...). Passaram 26 anos que o ouvi despejar isto. 28 que ele o escreveu. E hoje, quem tem 37 anos sou eu. E nunca como hoje senti este texto tão meu.

11/23/2007

Será um sinal?

Abri o tasco. Marcava 8888 visitas. Merece uma posta, pensei eu. Abro o blogger. Posta nº 111.
É do caraças, não acham, inúmeros e incontáveis?

Volto o mais breve possível, com assuntos menos comezinhos. Penso eu de que.

Ah! Gosto muito de vocês. Eu sei que estas coisas não se agradecem, mas o vosso carinho enche-me de calor e de luz :-)

11/15/2007

Nada

Sinto-me vazia. Sem assunto para escrever e de palavras gastas. Acabei de terminar mais uma correria de vários dias a cortar, colar, trocar, esticar e encolher vocábulos sobre questões alheias. À minha vontade e ao meu interesse. Não conseguir alinhar dois parágrafos dos quais sinta orgulho. Esperar por gente que se atrasa e não poder ir embora. Não poder fazer o mesmo sob pena de não esperarem por mim. Estar com os miúdos meia-hora por dia. Procurar em vão um par de meias no armário. Uma camisola que combine com a t-shirt e que aqueça na rua. Uma t-shirt que não destoe das calças e suficientemente fresca para os 30 graus da redacção. Umas calças que não pareçam ter sido adquiridas em 1983. Conseguir chegar a casa antes das dez da noite e sentir que não estou a fazer ali nada. Estar só no meio da multidão. Não pertencer a lugar algum. Ter saudades do futuro. Ansiar pelo que nunca tive e lamentar o que deixei para trás. Desejar outra coisa. Desejar desejar. Querer querer. Querer mais. Querer menos. Querer sair. Viajar. Conhecer. Querer entrar. Dormir. Acordar. Dormir. O inverno está a chegar e sinto-me vazia.

11/07/2007

Continuando em maré de intervalo

... e como continuo sem tempo para me alongar em assuntos mais sérios, os quais, porém (gostaram do porém? digam lá os inúmeros e incontáveis se não ficou aqui simplesmente uindo, sim, leram bem, eu escrevi uindo!!!) tenciono esmiuçar numa posta futura e espero que breve, aqui fica uma deliciosa posta de outrem que descobri quando fazia uma pesquisa com intuitos laborais (já viram o quão eloquente estou hoje? hein??? é pena não aproveitar a maré, mas já estou aqui a esticar-me, imaginem então se me largo aqui a falar de coisas realmente graves - e podem crer que os temas que pretendo tratar a curto trecho [mais uma expressão de fino recorte - já repararam que estou aqui num parêntesis entre travessões que já se encontravam entre parêntesis?!!! rachpartam a rapariga que não há meio de evitar dispersar-se a propósito de tudo e de nada - portanto agora vou fechar esta catrefada de àpartes interessantíssimos] este já está e agora mais este - e por fim...) Ufa. Prontos. O melhor é observar aqui um piqueno parágrafo.
Já está.
Dizia eu que descobri esta posta enquanto pesquisava e vou parar por aqui esta verborreia que, como toda a gente sabe - e os meus inúmeros e incontáveis ainda melhor, já que são pessoas de uma cultura tremenda (sim, tremenda, bláblábláblábláblá) - , é uma diarreia verbal, e deixar aqui o link para que os inúmeros e incontáveis possam ler com os próprios olhos e, quiçá, esboçar um sorriso como eu esbocei...

Posta engraçada descoberta em blog até agora desconhecido mas que desconfio valer a pena ir dando um olho... Meus amigos, que é como quem diz, inúmeros e incontáveis, é caso para dizer:

fisga-se! ou o que mais vos aprouver

Já agora lanço o desafio: bora lá arranjar (e enumerar aqui) mais expressões idiotas que as pessoas usam para substituir os palavrões, vulgo asneiras, vocábulos tão saborosos que não compreendo por que motivo a malta não os há de pronunciar com todas as letras.
E mais digo (heheheh!): bute inventar novos palavrões, que os que existem, como referi em posta relativamente recente, pura e simplesmente não chegam!

11/06/2007

Não era nada disto

Havia vários assuntos para várias postas, mas acontece que, para variar NÃO TENHO TEMPO, portanto, para já, vou partilhar convosco este GUIA PRÁTICO DA CIÊNCIA MODERNA que recebi por e-mílio. Além disso, os assuntos não eram propriamente divertidos e às vezes convém, como dizem os nossos irmãos brasileiros - que, por sinal, assinam as linhas que se seguem - , aligérar a coisa...

Aqui vai, pois, o Guia Prático da Ciência Moderna, de autor desconhecido, mas definitivamente brasileiro

1. Se mexer, pertence à biologia.
2. Se feder, pertence à química.
3. Se não funciona, pertence à física.
4. Se ninguém entende, é matemática.
5. Se não faz sentido, é economia ou psicologia.
6. Se mexer, feder, não funcionar, ninguém entender e não fizer sentido, é INFORMÁTICA.

LEI DA PROCURA INDIRETA
1. O modo mais rápido de se encontrar uma coisa é procurar outra.
2. Você sempre encontra aquilo que não está procurando.

LEI DA TELEFONIA.
1. Quando te ligam: se você tem caneta, não tem papel. Se tiver papel, não tem caneta. Se tiver ambos, ninguém liga.
2. Quando você liga para números errados de telefone, eles nunca estão ocupados.

Parágrafo único: Todo corpo mergulhado numa banheira ou debaixo do chuveiro faz tocar o telefone.

LEI DAS UNIDADES DE MEDIDA.
Se estiver escrito 'Tamanho Único', é porque não serve em ninguém, muito menos em você. >

LEI DA GRAVIDADE.
Se você consegue manter a cabeça enquanto à sua volta todos estão perdendo, provavelmente você não está entendendo a gravidade da situação.

LEI DOS CURSOS, PROVAS E AFINS.
80% da prova final será baseada na única aula a que você não compareceu, baseada no único livro que você não leu.

LEI DA QUEDA LIVRE.
1. Qualquer esforço para se agarrar um objeto em queda, provoca mais destruição do que se o deixássemos cair naturalmente.
2. A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor do carpete.

LEI DAS FILAS E DOS ENGARRAFAMENTOS.
A fila do lado sempre anda mais rápido.
Parágrafo único: Não adianta mudar de fila. A outra é sempre mais rápida.

LEI DA RELATIVIDADE DOCUMENTADA.
Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual.

LEI DO ESPARADRAPO.
Existem dois tipos de esparadrapo: o que não gruda e o que não sai.

LEI DA VIDA.
1. Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada.
2. Tudo que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda.

LEI DA ATRAÇÃO DE PARTÍCULAS.
Toda partícula que voa sempre encontra um olho aberto.

11/01/2007

Saudades da blogosfera (Parte 3 e não sei se acabou ou não)

Cada vez estava mais agarrada, mas, paradoxalmente, cada vez tinha menos tempo para alimentar o blog. O Nada começou a tornar-se um bicho, sedento de posts e eu a ressacar literalmente. Preciso de vir aqui, escrever como quem vomita, despejar as litradas que não bebo. Mas ao mesmo tempo dói-me. Precisamente porque perdi o pudor. Porque o blog é o único veículo da escrita que, estranhamente, me despe de bloqueios, de receios. Nem os inúmeros e incontáveis com rosto e cheiro, mulheres e homens me travaram. Cheguei ao ponto de revelar a existência do Nada a pessoas a quem nunca mostrei uma linha de poesia. Ou de prosa. Minha, digo. Coisas que tivesse escrito para além das encomendas do trabalho. Sem medo, sem vergonha. Como se isto tivesse deixado de me pertencer. Porque a verdade é que me exponho aqui como raramente o fiz. Um escarrapachanço completo. De modos que este tasco me provoca sentimentos ambivalentes, tipo: quero cá vir, quero postar mais e ao mesmo tempo fujo disto, fujo de mim mesma. Porque isto cada vez exige mais de mim. Não são vocês, inúmeros e incontáveis. (A propósito, ó Melongue, a questão não é quantas palavras vocês conseguem ler. A questão é quantos minutos consigo roubar ao rachtaparta do trabalho que cada vez me absorve mais, que me está literalmente a engolir e eu sem saber como escapar...). Não, não são vocês. Sou eu, é ela, a Calamity. É o Nada. Criei um monstro.
E tenho saudades. Saudades daqueles primeiros tempos, tempos de inocência, a infância da blogosfera, se é que posso designá-la desta forma. Eu sei que, para muitos, aquilo que para mim foi o início já era um período bem avançado. Havia blogs com nome. Com história. Com passado. Com memória. Com milhares de visitas e comentários.
Mas o que recordo com nostalgia foram aqueles 2, 3 meses, que pareciam o período de lua de mel dos adictos. Em que não descansava enquanto não viesse aqui, a este espaço de encontro, e ao mesmo tempo de solidão. E agora parece que isto nunca me satisfaz. Uma droga, tal e qual uma droga. Passo a semana inteira a tentar arranjar um bocadinho para isto mas tudo o que penso pôr aqui não ponho. Ou ponho, mas não chega. Tivesse eu o dia inteiro, não seria o suficiente. Tivesse eu os dias inteiros. Já não sei se gosto disto ou não. Mas que tenho saudades, tenho

A escrita é bela mas dói. A vida é bela mas dói. Será que arde porque cura, a escrita? Ou irá doer sempre tanto, cada vez mais e eu sem nada poder fazer que não seja continuar???

10/29/2007

Saudades da Blogosfera (parte 2 e ainda não última - sorry!!!)

Aquilo dizia-me tanto, era-me tudo tão familiar. Impossível não comentar, não dizer allô, eu estou aqui, sou tua amiga, tua irmã. Disse-lhe. Ela respondeu-me. Foi ela, a responsável por eu ter voltado ao Nada. Por ter feito um novo início. Por ter assumido a personalidade da Calamity.
Depois, vieram a Carla, a Estrelinha, a Loira. Todas como bizarras, divertidas e sedutoras extensões de mim própria. Devagarinho, primeiro. Como que a medo. O desflorar tímido de novos territórios. O descobrir cauteloso do outro - da outra, neste caso. O feedback despontava, empático, hilariante, bombástico, avassalador. A Zuza, a Frenética, a Sandra J, a Rute. A CK. A Azulinha. Gaijas, gaijas. Desculpem se me esqueço de alguma. A ideia nem é ser exaustiva. Foram momentos excitantes, delirantes. Todos os dias, horas na PC da minha mãe, eu sempre sem net em casa. Bebé no berço. Bebé nos braços. Bebé a mamar e eu a blogar. A emoção de postar e esperar pelos comentários. De sair de blog em blog à descoberta do que tinham elas inventado para hoje. de comentar e comentar os comentários. O que iam elas responder? Iriam elas gostar? Os primeiros encontros. O perceber que não era engano aquela sensação de conhecer mesmo as pessoas. O prazer de conseguir ainda surpreender-me com elas. E outra vez o receio de postar, pois agora já as conhecia. Já tinham rosto. Já sabiam o meu verdadeiro nome, o meu nº de telefone. Mas era irreversível. O Nada tinha ganho vida própria. A Calamity tornou-se quase maior que eu. Mais corajosa, pelo menos. Porque se expõe de uma forma que eu nunca teria ousado. Nunca ousei. Alguma vez ousarei?
Com quatro meninas que tinham ainda mais pontos em comum comigo do que as outras todas - por afinidades do coração, da cabeça e de ganha-pão, o que acaba por unir mais as pessoas do que se possa julgar - formou-se uma Estrela de 5 pontas, uma Estrela de Estrelas que brilhou e aqueceu os nossos corações para lá da blogosfera, para lá dos pequenos-almoços em tom de 'O Sexo e a Cidade' versão lisboeta com menos sexo, menos cidade, mas mais projectos, efervescência barulhenta e louca, que acabava sempre muito antes de ter começado a render coisa que se pudesse aproveitar realmente. Brainstormings frutuosos mas a pedir mais, a exigir sempre mais e nós a ter que ir, chamadas pelos filhos, pelos gaijos, pelo trabalho, o trabalho, o trabalho, o trabalho. Uma das pontinhas fazia-se sentir à distância, mas a presença dela era tão, mas tão forte que sinto desde então que ela sempre esteve lá. Até hoje, não lhe senti a consistência do abraço, mas conheço-lhe a composição da matéria. Verdadeira poeira de estrela. Luz capaz de trespassar a distância e a escuridão.

Mais à frente apareceram os primeiros gaijos. Um embate - aguardado mas temido . Enquanto as coisas se mantêm no âmbito estritamente feminino, tudo é permitido. Entre mulheres vai-se à casa de banho e, se não fomos à depilação, tudo bem. Elas entendem. Agora tirar as calças sem ter tratado do contorno do bikini é coisa que não se faz em qualquer praia. Estranhamente, a entrada dos homens no Nada não me bloqueou. Nem mesmo depois de, pelo menos um deles passar a ter rosto, nome, cheiro (como ele próprio referiu) e nº de telemóvel.

(continua)
P.S. Desculpem-me os inúmeros e incontáveis, mas o dever chama-me. Não se trata absolutamente de uma estratégia de marketing - se bem que até é capaz de funcionar... heheheh! Volto assim que puder, ok?

10/26/2007

Saudades da blogosfera

Como todas as paixões, esta foi nascendo sem que me apercebesse bem do que estava a acontecer. Foi-se insinuando, crescendo, ganhando espaço e, quando dei por mim, estava apanhada. Literalmente enredada. Começou por ser um mundo fascinante, mas que eu visitava como outsider, uma curiosa que não ousava imiscuir-se num meio a que não pertencia. Tipo penetra numa festa para a qual não tinha sido convidada.

Um dia, ganhei coragem, e, com a ajuda do gaijo que vive lá em casa - como dizia uma saudosa blogueira dissidente da nossa praça - , criei o meu tasco. Na altura não conhecia ainda os babyblogs nem os fotoblogs ou os musicblogs, nem os blogs de gaijas, de gaijos, de sexo, de comida, de livros, de escovas de dentes, de guarda-chuvas, de escárnio ou maldizer. Mas sabia que escrever era a minha vida, uma necessidade quase visceral, e que um blog era um espaço só meu, no qual podia ser a minha própria editora, escolher o assunto, a linguagem e a dimensão dos textos, parvejar, praguejar e divagar ou depressa, ir onde bem entendesse e até corria o risco de... ser lida.

(Sim, inúmeros e incontáveis, não me venham com tangas. Se a malta escreve, não é para si própria - eu, pelo menos, não acredito nisso. O mais solitário dos escritores, o que guarda os poemas e romances na gaveta e não diz a ninguém que os tem, se esconde para sacar da pena e do caderninho e dá ares de não saber alinhar duas palavras seguidas sonha secretamente com o Nobel da literatura. Ainda que afirme aos quatro ventos que o faz para se entreter, de si para consigo, como hobbie, como disciplina, em jeito de registo, pela necessidade de uma companhia e trinta por uma linha, tenho para mim - quem é que no outro dia confessava ter um fraquinho por esta expressão e andar há tempos à procura de uma ocasião para a utilizar? Se calhar era eu própria, perdoem-me os inúmeros e incontáveis, mas esta cabecinha já trabalhou melhor, ai já já... -que o faz na esperança secreta que os escritos sejam desencantados por alguém, publicados e revelados ao mundo ainda em tempo útil, que é como diz, de preferência antes ter retornado ao estado de pó e condenado à imaterialidade eterna. Pois criticai-me e - quiçá? - condenai-me até, à vontadinha que eu cá não vou nesses grupos do escritor autista que escreve apenas para si próprio. Todos escrevemos para alguém.)

E portantos, dizia eu de que, quando criei o tasco, o fiz com o duplo intuito de alcançar a liberdade editorial e de ter quem me lesse - que na altura não tinha emprego nem trabalho na minha área e, mesmo que o tivesse, debatia-me com uma dúvida existencial de peso, pelo menos para mim: se acaso eu tinha quem me lesse, o que pensariam esses 4 leitores? Além dos meus pais e um ou outro amigo mais entusiasta, desde os tempos da escola era assolada pelo deserto angustiante constituído pela total ausência de feedback em relação aos meus escritos. Há que confessar porém que esta necessidade sempre foi paradoxal, pois nos ditos tempos da escola não havia nada que me constrangesse mais do que ser lida em voz alta frente à turma inteira, ou, pior ainda, solicitada para ser eu a ler uma redacção perante toda a gente. Nó na garganta, lágrima embargada, embaraço total - nem quero lembrar-me...

Mais tarde, como raramente mostrava a quem quer que fosse o que quer que escrevesse - sim, porque eu desejava ter leitores, mas era limitada por um imenso pudor, um pudor tão desmesurado que me levava a guardar tudo na gaveta e a nada mostrar, a não ser aquilo que fosse publicado (nos tempos em que tinha trabalho como jornalista ou nas raras vezes em que me decidi a enviar escritos para aquelas secções dos jornais dedicadas aos jovens com aspirações a escribas) - e que eu desejava secretamente que ninguém das minhas proximidades lesse, não fosse gostar, ou não gostar, não fosse eu ser confrontada com qualquer manifestação em relação a uma linha que fosse por mim produzida - mantinha baixas, baixíssimas as probabilidades de obter retorno. Claro que, no meu íntimo, eu sabia que, quanto menos pessoal fosse o texto, menos embaraço me causava mostrá-lo. Mas aí, também, o interesse no feedback que este pudesse provocar diminuía proporcionalmente. No limite, se eu escrevesse um poema, só teria coragem de o publicar sob pseudónimo, não fosse alguém descobrir que era meu antes, pelo menos, da total consagração. Paradoxal, eu sei, mas ainda assim autêntico.

Bom, mas, como de costume, deixei a coisa fugir para a estratosfera.
Falava então de quando resolvi criar o Nada Como Realmente, ainda na versão antiga, sem layout webdisaster, e também sem um único dos inúmeros e incontáveis. Postei duas ou três vezes, não tive qualquer comentário e durante um ano - que correspondeu com a minha gravidez da miniCalamity - nunca mais regressei. Foi durante esse tempo que descobri como funcionava a coisa, e simultaneamente que, pela primeira vez, me apercebi de que existiam várias blogosferas, uma das quais recheadas de recém-mamãs e mamãs to be, as quais escreviam sobre as suas experiências e trocavam galhardetes, conselhos e miminhos. Curiosamente, talvez porque tivesse tropeçado nos babyblogs por motivos de trabalho, não me atrevi durante muito tempo a pronunciar-me, embora tudo aquilo me dissesse imenso respeito, já que era mãe de um filho, me preparava para sê-lo de uma menina, e que tenho a mania de meter o nariz em tudo. Mas, mesmo assim, mantive-me em quase-silêncio embora visitasse diariamente vários babyblogs nos quais comentei talvez três ou quatro vezes, apesar de nunca o ter feito como blogger.

Um dia, porém, não me contive. Estávamos em Março do ano passado. A miniCalamity tinha uns dois ou três meses. O blog que eu mais frequentava era o da Mãe Trintinha, provavelmente alguns dos inúmeros e incontáveis se lembram. Um comentário de uma tal Horas Vagas chamou-me a atenção. Fui ver. Li o blog do princípio ao fim.

(continua)