4/28/2009

É grave, Senhor Doutor?

O facto de estar a escrever esta posta é provavelmente a evidência cabal da pertinência da conclusão que os meus inúmeros e incontáveis irão tirar após concluírem a leitura da mesma - se é que tal coisa irá mesmo acontecer - , conclusão essa que posso desde já adiantar, poupando-vos assim à maçada de estabelecerem (mais) este duro, porém, estou certa, definitivo diagnóstico a meu respeito: já tem havido internamentos compulsivos em psiquiatria com motivos bem mais frágeis.

Se contudo os meus inúmeros e incontáveis insistem, por teimosia ou curiosidade, em prosseguir a leitura, só me resta, pois, partilhar convosco o que me traz aqui hoje e orar para que o vosso julgamento sobre o meu caso seja justo, porém brando.

O cenário é um consultório médico em prédio dos anos quarenta, de casas amplas, guichet a meio do corredor, porta pesada de madeira à qual foi adaptado um mecanismo automático sonoro, telefone(s) insistente(s), sala de espera ladeada de sofás e cadeiras, mesa redonda e austera ao centro repleta de revistas.Devem ser umas 16h15. Quatro pessoas distribuem-se por três assentos, todos os lados ocupados menos um, onde pontifica o pequeno ecrã em pleno ataque de hiperactividade estéril de segunda à tarde. Quatro pessoas: um homem de meia idade dando o flanco direito à TV; uma senhora rondando a mesma faixa etária sensivelmente à sua frente; enfrentando a caixinha barulhenta as restantes duas pessoas: um rapaz na casa dos vinte (digo eu, que ando cada vez pior nisto de atribuir idades à pessoas) e uma senhora na casa dos restantes ocupantes da sala. Entro, murmuro o boa tarde da praxe, vou direita à mesa das revistas, escolho uma daquelas que só consigo ler nestas ocasiões - para as cuscas, esclareço que se tratava da Máxima, na qual logrei tresler um texto sobre mentiras e sexo após o qual fiquei exactamente na mesma - e sento-me ao lado da senhora só, ficando o supra-citado televisor do meu lado esquerdo. Começo a ler. Ou melhor, começo a tentar ler. Não é fácil. O(s) telefone(s) toca(m) sem parar. A campaínha da porta também vai dando sinal de vida, que isto ou há moralidade ou comem todos. A Praça da Alegria intervalou e os compromissos comerciais estão apostados em rebentar com o volume do aparelho. Mas tudo isto até é suportável. Afinal, trabalhei tanto tempo em redacções. Com televisões ligadas em quatro canais a fazerem concursos de decibéis. Com a colega do cor-de-rosa a resolver questões difíceis (e quão difíceis, deus meu!) em altas vozes (e quão altas, deus meu!) e um ou dois chefes aos berros com um ou dois subordinados e telefones em trance psicadélico e a coisa até que se vai ultrapassando, umas vezes melhor outras pior, é certo, mas, digam-me os inúmeros e incontáveis, haverá ruído mais irritante, mais insuportavelmente desgastante do sistema nervoso central, periférico e latente (pronto, eu sei que tal coisa só deve existir na minha imaginação delirante, mas é só um efeito de estilo, uma mania de adjectivar ad nauseam), do que um bip bip repetitivo e insinuante??? Eu cá acho que não. Sim, é certo que o meu feitio sagitariano cruzado de neurótico herdado do meu querido pai me confere esta característica particularmente irritadiça que os inúmeros e incontáveis tão bem conhecem. Mas dentro da categoria dos barulhinhos especialmente irritantes, existem dois - assim de repente - que me fazem ir aos arames a uma velocidade próxima dos 300 mil km por segundo (para os mais distraídos trata-se da velocidade da luz e não precisam de me agradecer: afinal, todos temos de cumprir a nossa missão e a minha é ajudar a educar as massas. Ah, e antes que alguém se precipite a taxar-me de esta e mais aquela, vou já esclarecendo que não fui eu que disse, foi o teste de numerologia cujo link irei à procura se conseguir terminar a posta a tempo de não ser despedida). Portanto, dois, se bem se lembram: um é aquele plim plom! estridente e que fica a ecoar por meias-horas inteiras, e que ainda por cima nunca vem só, vem sempre repetido, assim: plim plom!, plim plom!, estridente e que fica a ecoar por meias-horas inteiras a tal ponto que uma pessoa já nem sabe se está ainda a ouvir o plim plom! ou se já se trata do próprio eco, que normalmente existe nas retrosarias, lojas de brindes e outras pérolas do comércio tradicional em vias de extinção nas quais para cúmulo os únicos artigos interessantes costumam estar pendurados precisamente ao lado do detector de presenças - pois é disso que falo, sabem, o tal plim plom! e poupo-vos ao resto da descrição -, o que tem habitualmente como resultado que fujo dali ao fim de oito a dez toques antes que desate a gritar furiosamente e o dono da loja - que normalmente é um velhinho adorável - me mande internar sem me deixar terminar de escrever a posta. O outro - estão a acompanhar-me? - é um bip bip repetitivo e insinuante cuja origem podemos até não estar a detectar mas que tem fortíssimas probabilidades de provir do telemóvel que o rapaz na casa dos vinte (digo eu, que ando cada vez pior nisto de atribuir idades à pessoas) dedilha entusiasmadamente enquanto a senhora a seu lado ronca suavemente, de cabeça levemente inclinada para trás e sem pestanejar.

(Para quem possa eventualmente ter ido à casa de banho ou atendido um telefone entretanto, esclareço que já saí da redacção e da loja de lavoures e estou de regresso à sala de espera do consultório médico)

Olho para ele franzindo o sobrolho (pelo menos, penso que franzo, que não tenho ali nenhum espelho à mão). O tipo não se manca e continua a teclar como se não houvesse amanhã. Um a um, percorro com o olhar os outros ocupantes da sala. Ninguém parece estar a reparar no barulhinho exasperante que escapa - agora estou certa disso - da maquininha insuportável do rapaz na casa dos vinte (digo eu, que ando cada vez pior nisto de atribuir idades à pessoas) que talvez não tenha exactamente a idade que eu penso mas que tem certamente idade para ter juízo. Bip bip. Ah, se fosse meu filho... Tento concentrar-me na leitura do fascinante artigo. Bip bip. Sabiam que três em cada quatro pessoas mente a respeito do número de parceiros sexuais? Em boa verdade vos digo, tenho praí uns... Bip bip. OK, pronto. Falamos nisso noutra altura. Bip bip. Até porque estou prestes a iniciar uma espiral de violência. Aviso já que sou particularmente atreita a ataques de nervos Ainda para mais nesta altura do mês. Bip bip. E vou bem lançada. Já estou a bufar. Como é possível que ninguém diga nada? Será que? Bip bip. Começo a virar ruidosamente as páginas da revista. Nada. O senhor da frente - o tal do flanco direito - olha para mim enquanto fixo significativamente o rapaz na casa dos vinte (digo eu, que ando cada vez pior nisto de atribuir idades à pessoas). Não parece estar a ouvir o bip bip que cada vez penetra mais fundo nos meus tímpanos, nos meus dentes, nas minhas unhas, na espinal-medula... Bip bip. A senhora - que, pensando bem até é capaz de ser mãe dele - continua a ressonar serenamente, cabeça tombada - um tudo nada embora - sem que dela emane o mínimo sinal de incómodo. Ao meu lado, a outra personagem de meia-idade (reparo agora que, quando digo de meia-idade, me estou a referir a uma pessoa entre os 50 e os 65) também não parece de perto nem de longe perturbada com o bip bip que me está progressiva mas insidiosamente a conduzir a um ponto de não-retorno. Digo? Não digo. Bip bip. Pronto. É demais. Vou respirar fundo, levantar-me, e perguntar, educada, mas firmemente, ao rapaz se não se importa de cortar o pio ao telefone. Basta tirar o som das teclas. Qualquer miúdo de 11 anos sabe isso. O meu sabe. Bip bip. Mas o paquiderme que habita as profundezas do meu ser tenta refrear os meus ânimos já deveras exaltados. Murmura (quase tão ruidosamente quanto o desesperante bip bip): "Tu acalma-te, Calamitosa. Tu tem tento na língua. Tu não te passes antes do tempo que tu perdes a razão e ós pois quem fica mal vista és tu. Tu observa lá cuidadosamente à tua volta a ver se mais nada estará a causar tão enervante bipar". Respiro fundo. O meu telefone toca. Levanto-me e vou atender lá fora. Quando regresso, o meu anterior lugar está ocupado. Sento-me do lado oposto. Pego noutra revista. Há alguma movimentação na sala enquanto o bip bip perdura como um interminável ruído de fundo. Duas raparigas novas entram e partilham o comprido banco comigo e com o senhor de meia-idade que afinal já terá ultrapassado a meia e que é chamado pela recepcionista. Quando volto a consciencializar-me do bip bip já passaram uns minutos. Levanto novamente os olhos e qual não é o meu espanto quando me apercebo que agora, quem tem o telemóvel infernal nas mãos é a senhora que outrora roncava discretamente e agora se ocupa a manejar a maquineta do demo sem lampejo de pudor!!! Não posso acreditar. Agora tenho a certeza. Trata-se definitivamente da mãe do rapaz na casa dos vinte (digo eu, que ando cada vez pior nisto de atribuir idades à pessoas). Como haveria de o rapaz ter qualquer sombra de boas-maneiras quando a própria progenitora se dedica à actividade frenética do teclanço barulhento sem qualquer contemplação??? O mundo está perdido. Ainda bem que não disse nada. Está-se mesmo a ver o género. A coisa teria certamente dado peixeirada. Bip bip. Ah, meus deuses, segurem-me, que eu vou-me a eles. Pego na terceira revista.

E é então que os acontecimentos se precipitam. O rapaz na casa dos vinte (digo eu, que ando cada vez pior nisto de atribuir idades à pessoas) já não se encontra na sala, a senhora que outrora roncava discretamente e seguidamente se ocupava a manejar a maquineta do demo deixou de jogar, não existe vivalma em toda a sala que possa estar a provocar o bip bip do meu descontentamento e no entanto ele continua. Bip Bip. É a minha vez de ser atendida. Entro na sala do médico. Sento-me, enquanto o senhor doutor foi lavar as mãos. A porta aberta dá para a entrada do consultório. Maquinetas em todo o lado. Dentro da sala, o ecógrafo. À entrada, o mecanismo que faz abrir a porta. Entre o corredor e a divisão onde me encontro, outro aparelhómetro. Todos eles piscam e todos eles são susceptíveis de estar a provocar o bip bip desde a minha chegada. Desde antes da minha chegada. E assim continuará após a minha partida. É assim todos os dias, provavelmente. Não há telemóvel, não há rapaz mal educado, não há mãe desnaturada, não há pacientes indiferentes. O que há é uma calamitosa louca, desvairada, e que um paquiderme pachorrento acabou de salvar de uma situação deveras embaraçosa. Quem disse que ter um elefante no lugar do grilo falante é uma tremenda maçada? Bip Bip.

4/26/2009

35 anos depois

Mudou a 'velhinha' palavra de ordem.

A nova é: "25 de Abril já!"

4/21/2009

O Estado e o estado a que isto chegou

35 anos depois do 25 de Abril, talvez tenha chegado o momento de nos interrogarmos sobre qual o papel do Estado e se fará sentido, dada a realidade, continuarmos a insistir neste modelo de sociedade. Mas, claro, isso sou eu, que tenho a mania de pensar em coisas...

De qualquer modo, e porque parece que, apesar daquela senhora gorda que se sentou em cima da malta e a quem chamam carinhosamente Crise, ainda andam aí alguns que têm manias (vícios, vá lá) semelhantes às minhas, aqui fica uma pista de reflexão. Coisa velhita e desactualizada...

Liberdade

Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão, habitação, saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir

Sérgio Godinho
(in 'À Queima-Roupa', 1974)

pensamos em conjunto?

4/20/2009

4/14/2009

Samba e Amor ou A vida é demasiado curta para que a passemos a engolir sapos

Sentir-nos felizes com aquilo que fazemos no dia-a-dia é condição sine qua non para mantermos a sanidade mental. Sempre me interroguei sobre como fazem aquelas pessoas que passam 40 horas por semana a sentirem-se miseráveis nos seus postos de trabalho, aturando chefes intratáveis ou executando tarefas deprimentes que não lhes dão qualquer tipo de prazer. Admiro essa capacidade de sacrifício mas seria absolutamente incapaz de viver assim. Admito que o meu saco deve ser particularmente pequeno, comparado com o da maioria, mas, quando começo a sentir-me em dissonância com um "emprego" - e é óbvio que, sendo precária desde 1998, este conceito de emprego é algo difícil de definir - o mal-estar vai num crescendo que, a pouco e pouco, vai tomando proporções tais que acaba por ocupar todo o espaço. É então que surgem os sintomas físicos de rejeição. Os primeiros, como não podia deixar de ser, situam-se (ainda) no campo psico-somático. Há cerca de 15 anos que deixei de ter insónias na acepção mais comum do termo. Esteja mal ou bem, adormeço sempre com a maior das facilidades. Às vezes até demais: quantas vezes não me fico a meio do intervalo de um filme que gostaria de ver até ao fim. De há uns anos para cá passei a ter nos gravadores de vídeo uns grandes aliados. Hoje em dia, se adormeço tarde, é porque ainda não comecei a amochar sobre o teclado do PC. A seu tempo, a coisa dar-se-á, presumo. Mas voltando à vaca-fria, dizia eu que não costumo ter dificuldades para adormecer. O meu sinal de alarme faz-se ouvir quando começo a acordar antes do despertador. Uma vez por outra, isto poderá ser aceitável, e até dar um certo jeito. Mas quando o fenómeno começa a repetir-se madrugada após madrugada e, sobretudo, quando me impede de descansar em condições - pois, sejam que horas forem, e tenha-me eu deitado cedo ou a desoras, a partir de determinada altura estes despertares nocturnos ou demasiado matinais são irreversíveis para aquela noite em concreto, ou seja, acordo e não volto a pregar olho -, eu sei que chegou o momento de tomar uma atitude. Tudo isto para dizer que as minhas capacidades preditivas atingiram provavelmente o seu auge. Sei hoje anticipar com uma precisão assustadora a altura em que o meu supracitado saco começará a carregar no indicador de "cheio" que, por sua vez, fará acender a luz vermelha. E por ter, ainda nem há um ano, passado um período em que deixei que às insónias nocturnas sucedesse a fase seguinte - vulgo destrambelhanço total - sei que o meu amor próprio não permitirá que volte tão cedo a deixar-me adoecer por coisas que não valem a minha preciosa saúde. Eu, os meus filhos, a nossa vida, o meu caminho (aquele que já escrevi e o que se encontra à minha frente por desbravar) - merecemos mais e melhor. Estou pronta a dar tudo num trabalho que me realize, que faça vir ao de cima o melhor de mim. Tenho muito para dar e só sei funcionar assim, com paixão. Compreendo (embora até hoje tenha dificuldade em aceitá-lo) que a maioria das tarefas não sejam compatíveis com a minha natureza. Mas acredito que, apesar de tudo, e por mais que me queiram fazer engolir conversas para boi dormir sobre a crise, a concorrência e o raio que os parta, há um lugar onde eu posso cumprir-me. Sem nós na garganta, sem apertos no estômago, sem noites mal dormidas que não sejam por febre criativa ou por fazer, como o meu querido Chico, "Samba e Amor até mais tarde". Fiquem, pois, com ele que eu vou ali e já venho.

4/06/2009

É só um sonho...

"Harry acenou a cabeça e suspirou. (...) Levantou-se, Dumbledore fez o mesmo e, durante muito tempo, olharam para o rosto um do outro.
- Diga-me só mais uma coisa - pediu Harry. - Isto é real? Ou tudo tem estado a acontecer na minha mente?
Dumbledore sorriu-lhe e a sua voz pareceu forte e audível, apesar da névoa intensa que estava de novo a abater-se, obscurecendo a sua figura.
- Claro que está a acontecer na tua mente, Harry. Mas por que razão há-de isso significar que não é real?"

in J. K. Rowling, "Harry Potter e os Talismãs da Morte"

Limpezas de primavera

Arrumar a minha casa vida...

4/02/2009

And the winner is...

O (i)número) (e) (in)contável 20000 entrou e saiu em silêncio. Mas a M(aravilhosa) Q(ue) P(artilha comigo o posto de cabra-recruta no curral mais movimentado da blogosfera) merece as alvíssaras (e perguntam-me vocês em que consistem as ditas, mas confesso que assim de repente ainda não pensei em nada) . O que é um número redondo vulgar como 20 mil ao pé de uma magnífica capicua como a que a Peixinha Taralhouca conseguiu ao ser a visitante nº 20002? Havia uma hipótese em 20002 (pronto, vá lá, em 22 ou 23) de ela ser a tal. Mas como ela é um bicho raro, que até muda de cor e tudo, perfez a façanha como se de uma brincadeira de crianças se tratasse. Por tudo isto e também porque há que ir publicando umas postas para entreter o pessoal, as alvíssaras vão direitinhas para ela.

3/31/2009

Talvez uns alhos?

Sinto-me esgotada. Por um lado, o jet-lag abateu-se sobre mim e por outro continuo a não saber preservar-me dos vampiros. Eles topam-me à légua e zuca! Vá de me sugar até ao tutano. Não sei se durma, se coma... Mas que preciso, urgentemente, de me recompor, lá isso preciso.

3/29/2009

Podeis chamar-me cabra (uma posta de aniversário)

É de tal forma alucinante a vida de todos os dias que este tasco fez anos há uma semana e só ontem me toquei. Quatro anos de blogosfera. Passaram à velocidade de uma ligação em banda larga. Refiro-me às que funcionam, claro.
Não vou fazer aqui um balanço de tudo o que significaram estes quatro anos em termos de ligações que vão muito para além de um enigmático código html. Já muito escrevi sobre isso e quem eventualmente queira recordar ou saber o que pensei - ou melhor, o que consegui apanhar desses pensamentos e depois escarrapachei aqui para poder partilhar com os inúmeros e incontáveis - pode sempre espreitar estas postas (entre outras).
Sempre ouvi dizer que na internet andava muita gente sem escrúpulos, pedófilos e violadores que coleccionavam dados da nossa vida privada até lograrem apanharem-nos numa viela escura e deserta e fazer-nos a folha, assim como aos nossos filhos, sobrinhos, pais e avós. Que da rede, como de Espanha, nem bons ventos, nem (muito menos!) bons casamentos. Dei por mim muitas vezes a pensar que ou era muito sortuda ou muito ingénua e, dados os antecedentes, achei que a segunda hipótese era de longe a mais verosímil. Mas, como o coração é casmurro, continuei a comportar-me como uma criança crédula. Expus-me aqui como raramente o tinha feito na vida real. Deambulei de link em link e descobri mundos. Pressenti serem muitos deles reais, feitos de gente de carne e osso, gente autêntica cuja essência me tocou como se lhes lesse limpidez nas pupilas que não via. Cruzei-me com algumas e confirmei a sua existência de facto, para lá dos nicks que vestiam. E verifiquei que os alteregos não lhes serviam de máscara, apenas de roupagem que, aliás, nem sempre lhes permitia escapar a um ou outro resfriado.
Claro, estaria a mentir se dissesse que isto é (apenas) um admirável mundo novo. Na blogosfera, como na vida (quantas e quantas vezes escrevi aqui que aquela constitui hoje em dia uma das mais perfeitas metáforas desta), prolifera também uma horda de gente medíocre, invejosa, mesquinha, interesseira, mentirosa, baça, desprovida de escrúpulos, de interesse e de talento. Mas, curiosamente, tenho vindo a aperceber-me que o meu desconfiómetro funciona melhor na leitura do que ao vivo e a cores. Pode parecer estranho mas é assim mesmo. Talvez por ter levado a minha infância a devorar livros mais do que a jogar à apanhada, desenvolvi esta capacidade que até há instantes nem sequer tinha verbalizado interiormente: há qualquer coisa na forma como as pessoas se exprimem por escrito que me faz apreendê-las melhor. Grasp, dir-se-ia em inglês. E a tascosfera permite ignorá-las com mais facilidade do que se nos tocassem à campaínha numa manhã de domingo querendo impingir-nos revistas chamadas sentinela ou se nos fizessem a vida negra num escritório a três dimensões.
Tudo isto (já sabeis que para ir de A a B, tenho de ir dar uma voltinha ao abecedário completo! ) para dizer que ontem recebi O Presente que coroa estes quatro anos de crescimento interior e na relação com o outro. Não posso qualificá-lo como inesperado. Estaria a mentir se dissesse que nunca me tinha passado pela cabeça recebê-lo. Mas, à semelhança de um bom thriller, o susto não foi menor, porque desconhecia por completo o momento em que tal poderia suceder. Ou se não passaria de uma fantasia. De forma que o embrulho me caiu nos braços como se um desconhecido de repente me oferecesse flores.
Há meses que frequento o tasco e que me sinto ali como em casa. De tal forma que foi crescendo em mim um sentimento de pertença. Não acredito em amores não correspondidos. Quando a afinidade é real, ela só pode ser recíproca. Há na relação humana qualquer coisa de transcendente que tem a ver com a inteligência, no sentido filosófico do verbo inteligir. O que quero dizer é que, mesmo que não me oferecessem sociedade, eu sentia-me parte da pandilha. E é muito boa esta sensação. Que culmina com um email: (...) Caso, para grande pena nossa, prefiram continuar só nas caixinhas fiquem a saber que o epíteto de Cabras já ninguém vos tira!... (sim, porque convite não foi só para mim! Atingiu em cheio a carola da peixa mais desmiolada da blogosfera!).
De modos que, inúmeros e incontáveis, vem a vossa Calamitosa anunciar-vos, da única forma que sabe, ou seja, num lençol a preceito, que, daqui para a frente, podeis chamar-me cabra. De serviço, num blog perto de si.

3/26/2009

A pita do gorro vermelho e o lobo que comeu o sans seriff que é o tipo de letra que o blogger usa por defeito e que eu por sinal até gramo à brava

E já que ninguém se pronunciou sobre um dos mais belos momentos do concerto de domingo
à noite (por acaso este até é de outro concerto mas a canção/poema é a mesma), xa-me cá ver se os inúmeros e incontáveis preferem um registo mais... hum... comékieu eidizere... enfim, o melhor é pespegar com a coisa aqui e vocês óspois classificam, ó quei? (depois venham-me pedir para ser um veículo de cultura e assim, que eu digo-vos...)

A propósito da língua portuguesa

Depois de "Cinderela para a Juventude", temos a versão " baita fixe" do Capuchinho Vermelho, para que as nossas crianças percebam a história.
Consta que tem o patrocínio do ME, porque, assim, já ninguém se preocupa com os erros.
Estão a pensar "inserir-la" no Magalhães.

"A Pita do Gorro Vermelho"

Tás a ver uma dama com um gorro vermelho? Yah, essa cena! A pita foi obrigada pela kota dela a ir à toca da velha levar umas cenas, pq a velha tava a bater mal, tázaver? E então disse-lhe:
- Ouve, nem te passes! Népia dessa cena de ires pelo refundido das árvores, que salta-te um meco marado dos cornos para a frente e depois tenho a bófia à cola!
Pá, a pita enfia a carapuça e vai na descontra pela estrada, mas a toca da velha era bué longe, e a pita cagou na cena da kota dela e enfiou-se pelo bosque

Népia de mitra, na boa e tal, a curtir o som do iPod....

É então que, ouve, salta um baita dog marado, todo chinado e bué ugly mêmo, que vira-se pa ela e grita:

- Yoh, tá td? Dd tc?

- Tásse... do gueto alí! E tu, tásse? - disse a pita

- Yah! E atão, q se faz?

- Seca, man! Vou levar o pacote à velha que mora ao fundo da track, que tá kuma moka do camano!

- Marado, marado!... Bute ripar uma até lá?

- Epá, má onda, tázaver? A minha cota não curte dessas cenas e põe-me de pildra se me cata...

- Dasse, a cota não tá aqui, dama! Bute ripar até à casa da tua velha, até te dou avanço, só naquela da curtição. Sem guita ao barulho nem nada.

- Yah prontes, na boa. Vais levar um baile katéte passas!!!

E lá riparam. Só que o dog enfiou-se por um short no meio do mato e chegou à toca da velha na maior, com bué avanço, tázaver? Manda um toque na porta, a velha 'quem é e o camano' e ele 'ah e tal, e não sei quê, que eu sou a pita do gorro vermelho, e na na na...', a velha abre a porta e PIMBA, o dog papa-a toda...

Mas mêmo, abre a bocarra e o camano e até chuchou os dedos...

O mano chega, vai ao móvel da velha, saca uma shirt assim mêmo á velha que a meca tinha lá, mete uns glasses na tromba e enfia-se no VL... o gajo tava bué abichanado mêmo, mas a larica era muita e a pita era à maneira, tázaver?

A pita chega, e tal, e malha na porta da velha.

- Basa aí cá pa dentro! - grita o dog.

- Yo, velhita, tásse?

- Tásse e tal, cuma moca do camâno... mas na boa...

- Toma esta cena, pa mamares-te toda aí...

- Bacano, pa ver se trato esta cena.

- Pá, mica uma cena: pa ke é esses baita olhos, man?

- Pá, pa micar melhor a cena, tásaver?

- Yah, yah... E os abanos, bué da bigs, pa ke é?

- Pá, pa poder controlar melhor a cena à volta, tásaver?

- Yah, bacano... e essa cremalheira toda janada e bué big? Pa que é a cena?

- É pa chinar esse corpo todo!!! GRRRRRRRR!!!!

E o dog manda-se à pita, naquela mêmo de a engolir, né? Só que a pita dá-lhe à brava na capoeira e saca um back-kick mesmo directo aos tomates do man e basa porta fora! Vai pela rua aos berros e tal, o dog vem atrás e dá-lhe um ganda-baite, pimba, mêmo nas nalgas, e quando vai pa engolir a gaja aparece um meco daqueles que corta as cenas cum serrote, saca de machado e afinfa-lhe mêmo nos cornos.

O dog kinou logo alí, o mano china a belly do dog e saca de lá a velha toda cheia da nhanha.

Ina man, a malta a gregoriar-se toda!!!

E prontes, é isso.


(prontes, recebi esta cena por email e o caraças, e não consigo mudar-lhe o tipo de letra nem à lei da bala e nem trocando as voltas todas ao blogger e ao word e ao gmail e o camandro. De modes que fica assim e o catano que eu a modes que já estou a ficar toda marada, tão aver?)

3/24/2009

Pão seco sem tomates

Não sei o que me tira mais do sério: se o tentarem comer-me por parva atirando-me areia para os olhos a ver se pega, se a falta de tomates que está por detrás deste comportamento. Uma falta de tomates que nos tempos que correm é o pão nosso de cada dia.

3/19/2009

Ecológicos, sim, mas devagar...

Hoje de manhã ouvi na rádio que as principais "eléctricas" europeias (?) (mundiais?), entre as quais a 'nossa' EDP (sim, inúmeros e incontáveis, a mesma que obteve em 2008 os maiores lucros de sempre enquanto todos falam de crise...) chegaram a acordo para que em 40 anos estejam todas a produzir energia 100% verde. Sim, inúmeros e incontáveis, podeis esfregar os olhos como eu esfreguei os ouvidos. É mesmo isso: 40 anos. Em 2050 estaremos a carburar sem causar danos ao ambiente. Refiro-me a electricidade, claro, que era disso que falava a notícia.
Em 2050. Estas resoluções são absolutamente admiráveis e confesso que não sei como farão estas empresas do mundo inteiro para conseguir, em tão breve lapso de tempo, uma tal proeza. Proponho que lhes seja imediamente atribuído o Nobel da Paz. A todas.

PS (salvo seja!): Procurei por toda a parte a mesma notícia na net e não a consegui encontrar. Estaria eu a sonhar? É que ouvi a notícia pelo menos duas vezes...

3/17/2009

Delírios de uma mente enredada

E pronto. Também me apanharam nas malhas desse fenómeno dos nossos dias chamado Twitter. Na verdade fui lá ver como era. E tenho de dizer que, francamente, continuo a não entender a utilidade da coisa. Tal como tenho resistido bravamente a tudo o que é hi five, facebook, myspace e quejandos. Há uns tempos, enredaram-me num desses berbicachos de seu nome Tagged. Em meia-dúzia de dias tinha mais emails de malta desconhecida interessada em conhecer-me via tagged do que caracóis no quintal, e posso assegurar-vos que são muitos. Muitos, muitos mais do que os inúmeros e incontáveis em quatro anos de blogosfera. E perguntam-me vocês: por que raio estariam eles interessados em conhecer-me? Por causa dos meus lindos olhos? Por ser uma mulher interessante, culta e talentosa? Pelo meu intenso sex-appeal? Pois, inúmeros e incontáveis, a verdade é que não faço a mínima, pois a referida plataforma (é assim, parece-me, que chamam a estas redes sociais que, a meu ver, existem tão somente para nos fazer perder ainda mais tempo nos nossos já ultraent[orpe]up[ec]idos* quotidianos) não continha quase nenhum detalhe sobre a minha pessoa e, em vez da minha foto, arborava a imagem de um belíssimo céu blue velvet carregadinho de estrelas. Rapidamente me arrependi de ter engrossado as fileiras do tagged e tentei desinscrever-me. E eis que, surpresa!, no way! Não conseguia descobrir como sair da rede. Que rede anti-social, pensei. Tentei escrever-lhes, pedindo-lhes encarecidamente que me deixassem sair. Que não era louca, dizia. Que apenas estava ali por engano. Que tinha gente à minha espera lá fora, que dariam pela minha falta rapidamente e certamente contactariam as autoridades. Nada. Naveguei desalvorada de link em link procurando freneticamente a porta da saída sem contudo obter desta o menor vislumbre. Tomei então a decisão, algo arriscada, porém definitiva: denunciei aqueles emails como spam. E logrei ver-me livre do tagged.
Claro, não sei se eles não andem aí, algures, à coca. Esperando, escondidos, a mínima ocasião para me apanharem em falso. E pespegarem comigo na dita-rede, quem sabe se para todo o sempre. Mas, para já, sinto-me leve, solta. Recuperei, parece-me, a minha autodeterminação.
Porquê, então, ter-me deixado entwittar? Porquê??? Confesso que não sei. Talvez pelo mistério? Quiçá pelo status... A verdade é que não consigo mover-me lá dentro. Pareço um tuga de vacanças em Paris, tentando entender onde raios fica a correspondência para Pont-Neuf. Ou Gambetta. Entrando por um canal de saída e não compreendendo por que raios vêm todos na minha direcção como se andassem atrás de mim. E por falar em atrás de mim, alguém me explica quem são estes gaijos e gaijas que deram em seguir-me? E porque o fazem? Se em quatro anos de blogosfera nunca se dignaram visitar-me ou deixar-me um singelo comentário... Se nunca me viram mais gorda nem mais charmosa... Se não imaginam que tenho péssimo acordar e que é melhor não me dirigirem a palavra antes do pequeno-almoço... Se nem em pesadelos lhes passou algumas vez pelas cabecitas o comprimento das minhas postas nem o encaracolar dos meus raciocínios... O que me quererão eles? Terei eu de lhes dar algo em troca? Haverá saída? Terei eu cometido o deslize fatal? Serão eles do tagged e virão buscar-me? Eu já disse que não sou a pessoa que procuram!! Eu tenho amigos importantes! Influentes! Eles vêm buscar-me! Deixem-me ir!!! Deixem-me!!!.................................. Socoooooorroooo!!!!!!!....................................................................................


*esta é para ti, Monikyta

3/16/2009

Perplexidades

Devo ser uma gaija realmente antiquada mas há uma coisa (entre outras, claro) que nos dias que correm (ora aí está uma expressão que faz todo o sentido, eu sei que já tinha dito mas cada vez que a uso me faz mais sentido...) me faz uma tremenda confusão: porque será que, numa era em que nunca foi tao fácil nem tão rápido entrar em contacto com alguém, cada vez menos as pessoas cumprem os seus compromissos? Dizem que aparecem e nada, não retornam chamadas, dizem amanhã e passados quinze dias continuam sem dizer água vai e toda a gente parece achar normal. Mas, lá está, o problema deve ser meu...

3/09/2009

Nada ou neominicalamitices

A gaijinha anda em plena idade dos porquês. Algumas das perguntas não são de fácil resposta. Há dias, queria qualquer coisa e eu tentava fazer com ela a clássica chantagem maternal (já não me lembro qual o objecto da dita, nem a contrapartida)

CJ: Mini Calamity, se não fazes isto, não te dou nada.
MiniCJ: Nada?? O que é isso, nada???

3/06/2009

O perito dois em um

Um tipo a sair de marcha-atrás deu-me uma panada no carro. Como estava estacionado em espinha e eu seguia em frente, apanhou-me o canto e a lateral esquerda. Entre outras coisas, o farol ficou todo metido para dentro e nem sei como continua a acender. Ontem, dez dias, cinco telefonemas, sete faxes e dois emails depois do "sinistro", fui finalmente à oficina para deixar o carro a fim de ser peritado. Tinha-me sido dito que teria um veículo de substituição à minha espera no local de modo que fui tomada de surpresa quando o senhor da Renault me começou a fazer perguntas. Então não é que, segundo referiu, a seguradora pediu-lhe que tirasse as fotos e enviasse o orçamento. E nem uma cópia da declaração amigável lhe mandaram. Despachou-me em pouco mais de dez minutos. Ainda mais extraordinário do que fazer peritagens sem peritos - o que no país das omeletes sem ovos, parece quase normal - foi quanto a mim, esta saída brilhante, apontando para o estrago principal* decorrente do "sinistro":"Este farol é que lhe digo já que não sei se eles vão pagar. Eu posso tentar, mas..."

*(existia anteriormente uma pequena batida na frente do lado oposto)

3/03/2009

3/01/2009

Toda a verdade (ler em tom SIC Notícias, pf)

Algumas curiosidades, assim em jeito de estatísticas muito pouco científicas.

1 -Ninguém fez jackpot.
2 - Quem acertou em duas, acertou sempre nas mesmas.
3 - Na outra, ninguém acertou mesmo.
4 - Só o Shark pensou que a resposta nº 5 pudesse ser uma das mentiras, classificando-a gentilmente como "ficção". Terá sido por todas as outras pessoas a tentar acertar serem do sexo feminino?
5 - Porque será que absolutamente ninguém pôs em causa a afirmação nº2?

E agora... Vamos lá ao que (diz que) interessa.

1 - Ainda acredito no príncipe encantado. Ah pois é! Quem disse que eu era uma rapariga inteligente? Parece que foi a Zá. Esqueceste-te que existem vários tipos de inteligência. A emocional nunca foi o meu forte...
(Mas também se não acreditar, que raio de sentido terá a existência?)

2 - Há 10 anos que ando a tentar deixar de fumar. Hahahahahahahahahahahah! Estou há dias a rir-me à pála desta. Pelo menos tu, Loira, podias ter acertado! Nunca, mas nunquinha, mesmo, fiz a mais tímida tentativa. Um a dois cigarros por dia é a minha média e não sinto a mínima necessidade de os largar. Sabem-me sempre tão bem!

3 - A minha mãe nasceu em Alcácer Quibir, o meu pai em Lisboa e eu no fim de uma tarde de nevoeiro em Paris. Bom, aqui admito que dei umas cores ao filme. Ou seja, não faço a mais pequena ideia se estava nevoeiro ou não, mas achei que combinava. Não vos parece? De resto é a mais pura verdade.

4 - Quando tinha dez anos de idade atravessei um lamaçal com altura pelo joelho à meia-noite porque o Chico Buarque em pessoa se encontrava do outro lado. Ahah! Nem tu, Teresa?! Estava certa que suspeitarias de que é inteiramente verdade.
Foi assim: em 1980 eu tinha 10 anos. O Chico Buarque foi cantar à Festa do Avante, ainda no tempo em que a Festa era no Alto da Ajuda. Nesse dia tinha chovido a potes e rebentou para lá um cano. O acesso ao Palco 25 de Abril transformou-se num imenso lamaçal que eu atravessei, juntamente com o meu pai - homem que me proporcionou muitas das grandes alegrias musicais com que enriqueci o currículo - e mais uma malta que estava connosco. E assim foi a primeira vez que vi o Chico ao vivo. No dia em que ele apresentou Simone à malta.

5 - Já adulta cheguei a passar um ano inteiro sem dar uma queca. Pois é, Shark. A vida nem sempre é fácil. Mas sobrevivi...

6 - Até hoje não casei mas já me separei mais de vinte vezes do mesmo homem de quem tive dois filhos. Loira, quando digo mais de vinte vezes, estou a fazer a conta por baixo. Muito por baixo... Afinal foram mais de 12 anos entremeados.

7 - Fui convidada para a mesma festa onde se encontravam a Claudia Raia, a Patrícia Pillar, o Tarcísio Meira e o Ary Fontoura. E falei com todos eles. Bom, se ninguém desconfiou também não conto a história. Pronto.

8 - Nunca fiz nudismo. Pelos vistos esta custa a engolir a muitos dos inúmeros. E com razão. Haverá lá coisa melhor que mergulhar ao fim do dia sem nada entre mim e "tanto mar"?

9 - Li os três tomos de 'O* Capital' de Karl Marx. Pois. Eles lá estavam, na estante da sala e ainda lá continuam. Vi-os lá tempo suficiente para saber que era "O" Capital, AEnima. Contudo tens razão: nunca os li. Mas sei a história...

2/25/2009

Seis verdades e três mentiras

Por incrível que pareça não sou grande mentirosa. Aliás, não sei mentir. O que, por mais que seja uma acérrima defensora da verdade a todo o custo nem sempre me tem sido de grande ajuda. Adiante. Desafia-me a Teresa para contar acerca de mim seis verdades e três mentiras. Como é por escrito, pode ser que não me vejam corar e torcer os lábios ;-)

1 - Ainda acredito no príncipe encantado;
2 - Há 10 anos que ando a tentar deixar de fumar;
3 - A minha mãe nasceu em Alcácer Quibir, o meu pai em Lisboa e eu no fim de uma tarde de nevoeiro em Paris;
4 - Quando tinha dez anos de idade atravessei um lamaçal com altura pelo joelho à meia-noite porque o Chico Buarque em pessoa se encontrava do outro lado;
5 - Já adulta cheguei a passar um ano inteiro sem dar uma queca;
6 - Até hoje não casei mas já me separei mais de vinte vezes do mesmo homem de quem tive dois filhos;
7 - Fui convidada para a mesma festa onde se encontravam a Claudia Raia, a Patrícia Pillar, o Tarcísio Meira e o Ary Fontoura. E falei com todos eles;
8 - Nunca fiz nudismo;
9 - Li os três tomos de 'O* Capital' de Karl Marx.

Desafio a Estrelinha, a Loira, a Cool, a Flores, a Blubina, a Ritmargaride, a Cristina, o Melão e o Mocho (não ponho links por estarem quase todos aqui ao lado e também porque não tenho tempo). Não desafio outras meninas de quem muito gosto por terem tascos privados... mas se quiserem agarrar, por mim, estão à vontade, obviamente.

* Uppsss: Obrigada, AEnima. Não te direi se acertaste ou não. Não era preciso lê-los para saber-lhes o título de trás para a frente, pois constam 'em pessoa' na estante da sala em casa dos meus pais assim como tudo o que o dito-cujo escreveu com Engels, tudo o que foi escrito acerca de e ainda ... E que tal fazeres também?

Já pensei tantas vezes em mandá-los passear mas às vezes há aquelas pequenas coisas...

"Bom dia, Professora.
Junto envio o meu trabalho de avaliação.
Desejo-lhe boas mini-férias, bom carnaval e melhores felicidades.
Muito obrigada pelo seu esforço e pela sua boa vontade e boa disposição perante nós, estudantes.
Com os melhores cumprimentos,"

fulana de tal


(não , não sou professora, mas dou aulas há muitos anos - é um complemento, uma actividade secundária, digamos assim)

2/13/2009

O que se pode dizer que outros não tenham dito antes?

(e muito melhor do que nós...)

Here comes the sun, do do do do
Here comes the sun, and I say
It's all right

Little darling
It's been a long cold lonely winter
Little darling
It feels like years since it's been here

Here comes the sun, do do do do
Here comes the sun, and I say
It's all right

Little darling
The smiles returning to the faces
Little darling
I seems like years since it's been here

Here comes the sun, do do do do
Here comes the sun, and I say
It's all right

Sun, sun, sun, here it comes
Sun, sun, sun, here it comes
Sun, sun, sun, here it comes
Sun, sun, sun, here it comes
Sun, sun, sun, here it comes

Little darling
I feel that ice is slowly melting
Little darling
It seems like years since it's been clear

Here comes the sun, do do do do
Here comes the sun, and I say
It's all right
Here comes the sun, do do do do
Here comes the sun
It's all right
It's all right

The Beatles (no mui frutífero ano de 69)

2/11/2009

A taberneira está de trombas

Tenho três postas iniciadas e disponibilidade zero para as terminar. A miúda esteve quatro dias sem pregar olho e eu idem idem aspas aspas. Estou com trabalho em atraso até à orelhas e só me apetece fugir. Estou zangada com o mundo e em particular com a PT, duas espécies de entidades patronais (não sei que outro nome lhes dar, aliás o termo "técnico" é "clientes" dos quais eu sou "fornecedora" - extraordinário!!!), o Ministério das Finanças, a Segurança Social, o Estado Português, o Estado em que esta Merda se Encontra e até (talvez devesse dizer "e sobretudo") comigo própria. Neste momento sinto que não há sequer uma alminha no mundo inteiro com quem possa contar de verdade. Portanto, meus amigos, é clicar na ligação seguinte que este tasco está fechado para balanço.



O que não quer dizer que não reabra amanhã.

2/08/2009

Diz que os inúmeros e incontáveis já degustavam outro repasto

e a bem dizer, também eu.

Fui ver. No frigorífico, a coisa não está famosa. Leite, iogurtes e uns queijitos. Ovos nada. O resto está no congelador mas lá ficará. Legumes vários que até transformaria numa ratatouille se alguém os descascasse e cortasse em rodelas, que o meu tempo escasseia, para não dizer que ruge. A acompanhar com um belo coucous que se faria quase sozinho... Mas tudo não passa de um exercício de imaginação. Assim sendo, e por que vos prezo, subtilizei a imagem aqui e deixo-vo-la (que lindo!) para alimentar os vossos sonhos mais palatais. Quanto a mim, fico-me pelas tostas com os ditos queijitos e à espera de melhores dias...

2/03/2009

A Minha Própria CCI

Começo por desde já repor a legitimidade: quis roubar a rubrica à Carlota e para a coisa não ficar logo escarrapachada no título encontrei esta 'solução': arranjar uma sigla que disfarçasse um pouco o meu acto de usurpação. Para os ínúmeros e incontáveis que eventualmente tenham resolvido prosseguir na leitura desta já de nascença enjeitada posta aqui fica o título por extenso: A Minha Própria Colecção de Coisas Irritantes.

E vou já avisando que são aos montes. Herdei do meu querido pai o feitio sagitariano cruzado de neurótico o que deu como resultado que sou de facto uma mecinha muito irritadiça. Tudo me irrita. Irrita-me tanta coisa que às vezes até me irrita este meu irritar tão rápido. Tão lesto, tão pronto a manifestar-se ao mínimo factor irritógeno. O que, diga-se, é algo que abunda neste nosso sonso e pacato paraíso à beira-mar plantado. O que é dificil é passar mais que uns instantes sem nos irritarmos, a não ser que estejamos a dormir. E mesmo assim, é sabido que existem dúzias de coisas que podem irritar o nosso sono: moscas, melgas e mosquitos, vizinhos barulhentos, digestões difíceis e filhos em crise. Mas acordados dificilmente deixamos de nos irritar. É que coisas irritantes não faltam à nossa volta. Eu até defendo a teoria que Portugal se devia virar para esta indústria e esquecer o turismo. Deixem lá isso para os países onde faz mesmo bom tempo. O clima tuga é apenas um mito. Dediquem-se antes a aperfeiçoar essa grande especialidade nacional que consiste em ser particularmente irritantes, irritadiços e profissionais do irritanço. Trabalhem em prol do desenvolvimento dos ícones irritógenos que irei apresentar em seguida. Descubram ou inventem outros. É um sector inesgotável. Verão que há poucos locais como o nosso querido país capazes de reunir num espaço tão diminuto como, por exemplo, a cidade de Lisboa, tanto objecto, hábito, comportamento, mobiliário urbanístico ou outros itens da mais variada natureza tão profundamente irritante ou susceptível de provocar irritação directa ou indirectamente.
Ontem durante a tarde tive a ocasião de me deparar com vários, já que fui a um local onde eles existem em grande número: um centro comercial. Começando pelas escadas rolantes. Há poucos fenómenos tão bizarros como o comportamento de um português diante de uma escada rolante. E, no entanto, há mais de duas décadas que elas foram implantadas em Portugal. Duas gerações, pelo menos, já nasceram com elas. Outras duas, ou até três, aprenderam - ou deviam ter aprendido - a conviver com este apetrecho típico das cidades contemporâneas. Como nos filmes de Hollywood, qualquer semelhança entre elas e um elevador é mera coincidência. Ou pelo menos, deveria ser. Elas até trazem uns sinais quanto a mim facilmente descodificáveis que nos informam do seguinte: Estacione à direita; circule pela esquerda. Onde se lê 'circule' deverá ler-se 'suba' ou 'desça', já que estas escadas costumam ser a direito, sendo que circular se torna algo complicado; mas esta realidade já existe no código de estrada e não parece causar tanta interpretação errónea. À falta de rotundas, há um certo número de pessoas que consegue perceber o que esta mensagem significa. E não estacionar sistematicamente em segunda fila, que, por sinal, no caso em questão, é a única pela qual se poderia circular. Pois até ao dia de hoje não encontrei uma alminha neste país que se comportasse em condições numa escada rolante. E não é só num centro comercial, o qual, poderiam os inúmeros e incontáveis argumentar, sendo um templo do consumo não é compatível com a situação de pressa. Quando o cidadão tuga se depara com uma escada rolante, seja lá onde for, mesmo que seja no metropolitano a trinta segundos da partida do último comboio, chega, estaca e ali fica. E se uma pessoa quer subir ou descer, que é para isso que elas servem, isto é, para nos ajudar a fazê-lo com mais celeridade e não para o fazerem por nós, já que para isso existem os elevadores, que muitas vezes se encontram no mesmíssimo espaço, se uma pessoa quiser, digo, subir ou descer, tem de zigzaguear nos poucos espaços deixados vagos, pedir mil vez com licença, e ainda ser fustigado com mil olhares de rávia, ódio, escárnio e maldizer como quem diz, olha esta malcriadona a querer passar à frente de toda a gente!!!
Mas prossigamos nesta incursão à montra de coisas irritantes que se podem encontrar num local aparentemente tão inócuo como um centro comercial. Nas casas-de-banho em geral, temos direito a mais duas: a primeira, assim que chegamos à torneira e a abrimos. Chamam-lhe inteligente. Inteligente como? Por que carga de água?!! Só se for daquela que iremos gastar quer queiramos quer não! Pois se aquela trampa deixa de correr quando estamos prestes a desaparecer sob a intensa espuma produzida pelo sabonete líquido que cheira a pastilha elástica obrigando-nos a carregar de novo com toda a força e com as mãos terrivelmente escorregadias, mas depois de eliminado o dito sabonete, aquilo parece comporta de barragem em dia de cheia e continua a deitar água suficiente para encher várias garrafas de litro e meio!

Depois, secar as mãos. Mas onde terão ido parar aqueles maravilhosos rolos de toalha de pano imaculadamento brancas que desapareciam à medida que os usávamos e que asseguravam o carácter ecológico dos nossos lavabos públicos? Eu até compreendo que já não se usem toalhetes de papel - o que, em última instância, seria preferível, já que o papel higiénico acaba por ser utilizado no seu lugar, mas como se desfaz facilmente gasta-se provavelmente muito mais sendo que depois vai para a sanita e não para o cesto - agora existirá alguma criatura com mais de catorze anos que realmente goste daqueles secadores automáticos? Que além de barulhentos, gastam energia e não secam coisa nenhuma a não ser que estejamos dispostos a passar ali o resto da tarde?

Saído para a rua em busca de um pouco de paz encontramos logo outro item desta colecção virtualmente infinita: os passeios. Mas quem raio se terá lembrado de não os fazer suficientemente largos para aqueles grupos de pessoas que decidem ocupá-los por completo? Por que razão obscura não terão eles todos pelo menos quatro metros de largura e corredor de escoamento para chatas como eu?

Um objecto que definitivamente, para ser autorizado, deveria ser sujeito a uma vistoria por uma entidade independente ou então, como os seus congéneres, à obtenção de uma licença de uso e porte de arma, são os guarda-chuvas, vulgo chapéus-de-chuva. Para já, onde terão ido buscar este nome? Toda a gente sabe que um chapéu é um objecto que se usa em cima da cabeça. E mesmo a palavra guarda, está bem, pois da forma como muitas pessoas o usam, está-se mesmo a ver o motivo: "En garde", grita o objecto que trazem ameaçadoramente espetado na nossa direcção como quem dissesse "E se não te pões a pau, eu chego-te" (Like american say: if you don't put you a stick, I'll arrive you"). Embora 'chegar' seja pouco mais que um eufemismo. Trespassar seria um termo mais adequado. Quanto à terminação 'chuva', enfim, releva da mais óbvia falta de observação. Guarda-distâncias, sim faz todo o sentido. Agora guarda-chuva? Para guardar a chuva, os dito-cujos deveriam apresentar-se ao contrário, de outro modo, como fazer? Pois se ela lhes escorrega por cima?!!

(continua)
(assim como a série das Sopeiras, para gáudio de um(a) certo(a) anónimo(a) que me brindou com uns mimos e que faço questão de presentear com mais uma das minhas incontornáveis postas, assim como um lugar especial no pódio da Minha Própria CCI)

1/30/2009

Retrato-robô das sopeiras de antanho

Capítulo 1 – As criadas das nossas avós

Chamavam-se Emília ou Judite ou simplesmente Maria. Quando se falava delas eram referidas como as criadas e não havia mal nisso. Chamavam os nossos pais “Menino José Manuel” e as nossas avós “Minha Senhora”. Não tinham idade e já estavam em Lisboa há tanto tempo que nem se lembravam do nome da terra de onde vinham. Usavam lenço na cabeça, bigode e pêlos nas pernas. Dormiam num quartinho que existia em todas as casas ao lado da cozinha e acordavam antes de toda a gente para ir ao leite e ao pão e às 7 da manhã já estavam a arranjar o pequeno-almoço da família inteira. À noite, só recolhiam depois de lavada e arrumada a loiça do jantar. Decidiam e confeccionavam as refeições, sempre de acordo com as suas senhoras e não havia prato ou sobremesa que não soubessem fazer. Depois de lavada e arrumada a loiça do almoço, sentavam-se a fazer naperons de croché e botinhas para o enxoval dos netos da patroa. Andavam atrás de nós para ter a certeza de que comíamos os papos-secos com manteiga (flora) e açúcar que nos davam para a merenda depois de nos irem buscar à escola (como é que nós conseguíamos gostar daquilo???). Falavam e gritavam muito alto, e, se nos portássemos mal, tinham ordem para nos puxar as orelhas, a qual levavam à letra. Não sabiam ler nem escrever mas dominavam todos os conhecimentos necessários à administração de uma casa e nunca se enganavam nas contas nem se esqueciam de comprar o pão. Lavavam a escada do prédio e o chão da cozinha de gatas e ‘desarredavam’ os móveis de madeira maciça à força de braços para limpar energicamente o pó que se acumulava por detrás. Tinham as cozinhas rigorosamente impecáveis e se caísse pinga de gordura em cima do fogão limpavam-na com a unha. Sabiam distinguir uma peça de roupa suja de uma limpa e não era preciso dizer-lhes para tratarem da saúde ao conteúdo da tulha, que geriam. Lavavam no tanque, determinadamente, com sabão azul e branco. E não havia nódoa que lhes resistisse. Sabiam que a roupa branca se estende ao sol e a de cor à sombra e, mesmo que não tivessem grandes cuidados em evitar vincá-la quando a estendiam, não havia problemas pois arranjavam sempre um espaço na sua agenda para a engomar. E, evidentemente, arrumavam-na no seu lugar. Seria de todo impossível para elas confundir a roupa de uma mulher de 39 anos com a do seu filho de 11, por mais parecidas que pudessem ser (Sim, eu sei que nessa altura era mais fácil distinguir, mas, convenhamos, sweat-shirts XL a dizer ‘Boarder’?!). Sabiam igualmente detectar quando algo estava roto ou descosido e não era preciso dizer nada. Remendavam tudo, muitas vezes sem que sequer o dono da peça em questão se tivesse sequer dado conta do buraco. Também não era preciso explicar-lhes que a sujidade se acumula debaixo das camas e deve ser limpa, nem pedir-lhes que, por especial favor, deslocassem os objectos de cima dos balcões quando os limpavam. Sabiam sempre quando era preciso mudar as roupas das camas e as toalhas nas casas-de-banho.
Chegada a primavera, subiam para cima dos bancos e dos escadotes e lavavam os vidros por dentro e por fora, arrecadavam as mantas e os tapetes, limpavam as teias de aranha da despensa e dos tectos, arejavam todos os cantinhos da casa, tiravam a roupa de verão dos malões onde esta se encontrava, lavavam-na, estendiam-na, engomavam-na criteriosamente e nunca tinham o serviço atrasado. Todos os dias variam e lavavam o chão com sabão azul e branco e quinzenalmente enceravam as madeiras. Nesses dias, expulsavam-nos da sala, que se chamava casa-de-jantar , dando-nos palmadas nos rabos ou vassouradas na barriga das pernas. Não tinham vida própria e eram felizes assim. Ao domingo saiam às três da tarde. De inverno, iam à matinée do Tivoli ou do Paris e quando estava sol iam ao jardim da Estrela dar pão seco aos patinhos e fazer renda nos bancos. Sem esquecer, claro, a missa das seis. No regresso traziam caramelos “para os meninos”. Quando nos portávamos bem com elas, deixavam-nos ir brincar com os vizinhos mesmo que os nossos pais nos tivessem posto de castigo. Faziam parte da família e choravam com as nossas penas, emocionavam-se com as nossas alegrias e estavam presentes nos aniversários, baptizados e casamentos. Quando um dia ficavam demasiado velhas, regressavam à terra não sem antes ter ido lá buscar a sobrinha de quinze anos que se chamava Isabel ou Maria do Céu e a quem antes de partir ensinavam com desvelo todo o serviço da casa.

(próximo capítulo: As empregadas dos nossos pais)

1/29/2009

Por estas e por outras é que eu gosto dela

se houvesse uma palavra para a definir, essa palavra seria ternura. Tem sobre a realidade um olhar raro. Sei que não se vai importar que o partilhe convosco...

A luz ao fundo do túnel

... há quase três horas que não chove!!!

1/26/2009

Portugal, 2009

48 horas para cozinhar uma posta é muito tempo. Nem que fosse de bacalhau especial. Esta não. A ver com o bacalhau só o facto de se referir a factos que ocorrem neste triste paraíso à beira-mar plantado e de especial o tamanho da estupidez, da ignorância, da maldade. Sim, porque em todo o acto de discriminação, não me venham com tangas, tem de existir um quê de maldade, uma pontinha do inquisidor que dorme no fundinho do ser mas que cabe a todos nós domar, digo eu de que, mas é verdade que eu sou como a tia do outro e tenho a mania de dizer coisas.

Pois 48 horas para cozinhar uma posta é muito tempo mas há coisas que se nos atravessam na garganta e a malta não sabe muito bem como abordar, como trazer ao de cima, de tão boquiabertos ficamos quando somos confrontados com elas.

Imagine-se uma clínica dentária de renome em Lisboa, capital de Portugal, país-membro da União Europeia desde 1986 (se não me falha a memória), país membro da ONU, país signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, país que foi o primeiro do mundo a abolir a escravatura e a pena de morte, país que se diz de brandos costumes, país este onde vivo e que amo, em 2009, final da primeira década do séc. XXI, um quarto de século (e mais uns trocos) depois de isolado o VIH, 125 anos depois de Pasteur, quinhentos anos depois da inquisição.

Imagine-se, dizia, uma clínica dentária aqui e agora que descobre que um dos seus utentes está in(a)fectado por uma doença crónica que é (comprovadamente) apenas transmissível por via sanguínea. Imagine-se que essa clínica, onde é suposto que todo o material utilizado seja amplamente esterilizado e, obviamente, todas as práticas e rotinas sejam de molde a proteger técnicos e utentes da mais leve possibilidade de serem contaminados com seja que doença for, e por maioria de razão, de estarem em contacto com vírus como o HIV (transmissão sanguínea e sexual) e o HCV (transmissão sanguínea).

Para quem possa eventualmente ignorá-lo, calcula-se que o HCV (Vírus da Hepatite C) afecta actualmente cerca de 1,5% da população portuguesa, sem que a grande maioria (90%) dos portadores tenha desse facto sequer a mais leve suspeita. Feitas as contas dá qualquer coisa como 150 mil pessoas. Nada que se compare, nem de longe nem de perto, com a incidência da SIDA. É por isso considerada pelos médicos como "A epidemia silenciosa". Mas adiante. Há cerca de 10/15 anos que se sabe com toda a certeza que o vírus da Hepatite C apenas é transmissível por via sanguínea, sendo que os raríssimos casos em que há suspeita de outros modos de transmissão dizem respeito a casos de eventual contaminação por via sexual (quem garante que nos casos em questão não existiam feridas, mesmo microscópicas?) ou de mãe para filho (mais uma vez nestes casos há uma grande probabilidade de ter havido contacto entre o sangue da mãe e o do bebé, quanto mais não seja no momento do parto). À diferença das mães seropositivas para o HIV, as que são portadoras do HCV são incentivadas pelos médicos a amamentar os seus filhos, já que se considera que os benefícios desse acto são infinitamente superiores aos (nunca demonstrados) riscos de transmissão do vírus através do leite (excluindo-se, uma vez mais, a existência de feridas ou gretas no mamilo que pudessem pôr em causa a segurança da amamentação).

Imagine-se, pois, uma clínica dentária aqui e agora, uma clínica dentária privada mas que possui acordos com várias entidades que lhe conferem desse modo credibilidade, uma clínica dentária de dimensão considerável, uma clínica dentária que tem um serviço de urgências, tornando-se assim muito concorrida . Imagine-se que esta clinica, ao descobrir que um dos seus utentes está in(a)fectado pelo vírus da Hepatite C (mas podia ser HIV), lhe transmite a informação de que, dali em diante, terá de ser atendido depois das 19h00, no "final do expediente". Imagine-se que este utente pede explicações para tal medida, suspeitando que se trate de uma política discriminatória, logo inaceitável. Imagine-se que lhe é dada uma desculpa totalmente esfarrapada que invoca entre outros disparates desprovidos de qualquer bom-senso a "ausência de esterilização do ar" e enormidades do género.

Imagine-se ainda que o médico dentista que fala em nome da clínica acrescenta com sobranceria que ali, naquela clínica, ninguém se nega a atender clientes infectados com aqueles vírus, à diferença de outros "colegas", que o fazem. Imagine-se que o utente, espantado com tal revelação, a questiona e que lhe é respondido que "um médico-dentista não é obrigado a atender ninguém, muito menos em clínica privada" e que, confrontado com as questões inerentes à deontologia médica, responde que "os médicos-dentistas não são médicos, nós não estamos sujeitos ao juramento de Hipócrates" (!!!).

Pois bem, inúmeros e incontáveis, não precisais de violentar a vossa preciosa imaginação em exercícios tão complexos como conceber episódios desta natureza. A clínica dentária existe e este caso ocorreu na semana passada. Em 2009, em Lisboa, em Portugal . No tal país. No país onde se isolam parturientes portadoras dos vírus acima referidos sem qualquer justificação plausível. Violando o princípio da igualdade, um dos mais elementares, garantido pela Constituição da República e pela tal Declaração Universal (ultrapassada, diariamente, pelos acontecimentos, em todo o mundo). Violando o direito ao anonimato e à privacidade dos doentes, já que a condição de positivos é escarrapachada nos quadros clínicos usados pelo pessoal de enfermagem os quais se encontram nos corredores das enfermarias à vista de todos os que por ali passam. No país onde, em Dezembro de 2005, a vossa Calamity foi deixada 14 horas depois de parir dentro da mesma sala onde tinha feito a dilatação pois não havia quartos na neotologia embora existisse um bloco de partos novo em folha por estrear desde Março do ano anterior o que ainda não ocorrera por falta de material. Onde a vossa Calamity teve de berrar com uma enfermeira-chefe para que lhe fosse dado o direito a receber um par de cuecas da sua mala para que, quando se levantasse para ir à casa-de-banho (o que ocorre algumas vezes quando se acabou de ter um filho) não tivesse de andar de cu para o ar e penso entre as pernas em frente das visitas da sua companheira de quarto, pois o hospital não dispunha de cuecas descartáveis e não deixava entrar objectos estranhos na sala de dilatação onde ambas se encontravam com os seus bebés recém-nascidos por falta de quartos. O mesmo país onde se deixam morrer doentes em estado terminal à hora das visitas à frente de crianças que visitam o doente da cama ao lado. O mesmo país onde pessoas com gripe, tuberculose, pneumonia, herpes labial e uma inifinidade indiscrível de doenças infecto-contagiosas não são protegidas nem submetidas às mais elementares regras de prevenção para que não contagiem terceiros nos centros de saúde, hospitais e nas tais clínicas dentárias onde se pratica discriminação indiscriminada e criminosa.

O país onde, diariamente, a realidade ultrapassa a ficção.


1/25/2009

Coisas que encontramos perdidas há que tempos na caixa do gmail...

DICIONÁRIO FEMININO

Sim. = Não.

Não. = Sim.

Talvez... = Não.

Não sei se será assim. = Vai ser como eu quero.

Nós queremos. = EU quero.

Faz como quiseres. = Vais pagar muito caro por isto!

Precisamos de conversar... = Agora vais ouvir.

Vai em frente. = Não quero que vás.

Não estou chateada. = Lógico que estou chateada.

Sê romântico, apaga as luzes... = Sinto-me gorda.

Esta cozinha não dá muito jeito = Quero uma casa nova.

Até que ponto me amas? = Fiz algo que não vais gostar de saber...

Estou pronta num minuto! =Tira os sapatos, escolhe um canal de TV e relaxa.

Estou gorda? = Diz que estou bonita.

Precisas de aprender a comunicar. = Concorda sempre comigo.

Não estou a gritar! = VOU PARTIR ESTA MERDA TODA!


DICIONÁRIO MASCULINO

Estou com fome. = Estou com fome.

Estou com sono. = Estou com sono.

Estou cansado. = Estou cansado.

Queres ir ao cinema? = Vamos dar uma queca ?

Posso convidar-te para jantar? = Vamos dar uma queca ?

Posso ligar-te? = Vamos dar uma queca ?

Queres dançar comigo? = Vamos dar uma queca ?

Bonito vestido! = Que decote! Vamos dar uma queca!

Pareces tensa... Deixa-me fazer-te uma massagem. = Vamos dar uma queca.

Estou chateado. = Vamos dar uma queca.

Amo-te! = Vamos dar uma queca, agora!

Vamos conversar... = Vamos dar uma queca...

Queres casar comigo? = Não quero que andes por aí a dar quecas com outros.

Gosto mais desse... = Qualquer vestido serve, vamos dar uma queca duma vez!


(Cool, este encaixa direitinho na sequência do Men's brain/Women's brain... )

E vão 200 postas...

1/22/2009

E agora, para algo completamente diferente...

A Cultura geral é bonita


Para aumentar o conhecimento :
Sabiam que antigamente, na Inglaterra, as pessoas que não fossem da família real tinham que pedir autorização ao Rei para terem relações sexuais? Por exemplo: quando as pessoas queriam ter filhos, tinham que pedir consentimento ao Rei, que, então, ao permitir o coito, mandava entregar-lhes uma placa que deveria ser pendurada na porta de casa com a frase 'Fornication Under Consent of the King' (fornicação sob consentimento do rei) = sigla F.U.C.K ., daí a origem da palavra FUCK.
Já em Portugal , devido à baixa taxa natalidade, as pessoas eram obrigadas a ter relações: 'Fornicação Obrigatória por Despacho Administrativo' = sigla F.O.D.A ., daí a origem da palavra FODA.
Por sua vez, quem fosse solteiro ou viúvo, tinha que ter na porta a frase: 'Processo Unilateral de Normalização Hormonal por Estimulação Temporária Auto-induzida', sigla P.U.N.H.E.T.A .
Vivendo e aprendendo...
A gente pode até dizer uns palavrões, mas com conhecimento e cultura é outra coisa!

(recebido por email)

1/20/2009

Há assuntos dos quais é difícil desligar

(imagem daqui)


Ainda estou em choque. Nasceu no mesmo ano que eu. Fecho os olhos e não consigo deixar de ver a sua imagem luminosa, a sua energia contagiante. De ouvi-lo cantar com veemência: "Há quem navegue de porto em porto, eu navego de bar em bar, há quem procure fazer fortuna eu procuro naufragar". Era um miúdo. Eu era uma miúda. Ainda sou... "Telefonei pra Tóquio só pra te ouvir cantar, pensei que a tua voz me pudesse animar..." Cantava Sitiados à filha de uma amiga, ainda bebé, seis meses apenas, e ela torcia-se de gozo... A minha filha de 3 anos tem hoje o mesmo nome que essa bebé. E a bebé... a bebé fez 18 anos há pouco mais de um mês. Sim, a bebé tem hoje 18 anos mas eu ainda sou uma miúda e o João também.

1/15/2009

Porque postar sobre frivolidades (ao que parece) é sempre garantia de sucesso - Parte 2

Dirijo-me então sob uma chuva intermitente (e ainda não dissolvente) ao dito-cujo centro comercial. Assim que entro dou de caras com uma sapataria pejada de botas pretas. Ahah! digo de mim para comigo. Vou finalmente resolver o meu assunto. E vai ser já. Qual quê! Que vos dizia eu? Botas normais? Népias. Nada. Rien de rien. Em 30 pares de botas rasas nem um que tenha um corte aceitável. Quem foi que disse que o design do calçado português é de primeira qualidade? Só se for num concurso organizado pela Associação dos Produtores de Sapatos da Baixa da Banheira! E mesmo assim, convidaram para júri vinte criaturas que não saíram de casa desde 1979. Belheurc!!! Vou ali ver outra montra. Sigo pelo primeiro corredor à esquerda. Pelo caminho julgo ver uma colecção de calças pretas no meio das quais descobrirei certamente umas que me sirvam no cu, nas ancas e no gosto. Aproximo-me. Pois. Tal como as botas, era bom de mais para ser verdade. Nem me dou ao trabalho de tirá-las do cabide (cruzeta, diria a Teresa da Cabra de Serviço, link a colocar oportunamente). Parecem todas, rigorosamente todas envoltas numa camada de meio-centímetro de poeira. Tecido de vigéssima quinta categoria. Havia de ser giro, mesmo que umas me agradassem e servissem. Eu a entrar no autocarro e tudo a espirrar. Eu a entrar no meu local de trabalho e a funcionária da limpeza atrás de mim com o aspirador em riste. Ou quem sabe com o espanador. Mas esta gente nao vê o que está a vender? Não entendem que deviam pagar para lhes desempoeirarmos a loja? Haja paciência.

Regresso ao corredor e prossigo na minha missão sapataria. As calças terão de esperar por melhores dias, até porque, mesmo que encontrasse umas que eventualmente pudessem servir o meu propósito (noutra loja que não as das calças agarradas ao pó, claro), teria de as experimentar para ver se cabiam nos restantes critérios (para quem eventualmente esteja interessado e possa - não sei bem porquê - ter-se perdido no raciocínio, estão referidos a meio do parágrafo anterior), o que implicaria desapertar os atacadores infindáveis das minhas bem-amadas botas castanhas com quase 4 anos de idade (quem me dera que assim fosse com as botas pretas mas a verdade é que estas são daquelas que irão durar uma vida e tratarão da saúde a qualquer traça que se aproxime, aliás, pensando melhor, tratarão também da saúde a qualquer meliante pois não gostaria de estar na pele de quem levasse com elas nas trombas), despir as calças, arranjar espaço na cabine de provas para pendurá-las, e à mala e ao casaco, experimentar as ditas que em 95% dos casos não iriam cair bem e recomeçar todo o processo em sentido contrário, coisa que não me estava minimamente a apetecer por isso adiante, siga pra bingo, que é como quem diz, hoje vieste em busca de botas e em busca de botas continuarás. E continuei. Paragem seguinte é sinónimo de paragem forçada. Eu bem tentei desviar-me, que já a vinha topar a léguas. Mas a bacana apanhou-me. Quase me agarrou pelo colarinho. O que estava a tentar impingir-me, não sei e continuei sem saber mesmo após ter dado de caras com ela três vezes - três!!! e ela ter voltado à carga sempre com a mesma intensidade. Caramba, que não sei como estes arquitectos constroem os rachtaparta dos centros comerciais e isto nunca me acontece no bendito Shopping das Amoreiras mas vim a comprovar que é característico dos de Picoas ao tentar circular no seguinte: é que por mais que a gente tente rentabilizar a volta e não repetir trajectos acabamos por passar e repassar não sei quantas vezes no mesmo sítio! E eu até sou gajinha que me gabo de ter um bom sentido de orientação. Quando vi que ia passar pela quarta vez pelo território da angariadora deveras decidida a impingir-me sei lá o quê e já depois de por duas vezes ter voltado para trás pela mesma razão, esgueirei-me pela mesma porta por onde tinha entrado. Ufa! É que não há meio desta gente entender uma coisa muito simples: quando quero comprar uma coisa vou à loja. Que mais poderia estar eu a fazer num centro comercial??? À procura de uma angariadora deveras decidida a impingir-me sabe-se-lá o quê? Ainda se fosse um gaijo giro!

Cá fora a chuva passara a dissolvente. Botas, claro, nem vê-las. Entre as investidas da angariadora deveras decidida a impingir-me sabe-se-lá o quê (e que, diga-se de passagem, agora que penso nisso, deixa muito a desejar na sua competência profissional uma vez que parece não ser capaz de fixar na sua fraca memória fotográfica a imagem que acredito ser assaz assustadora de uma gaija deveras decidida a não se deixar levar por ela bem como, aliás, no seu deficiente arquivo sonoro o registo do rugido de uma mulher deveras decidida a prosseguir o seu caminho sem ser importunada) conseguira detectar por entre as passagens labírinticas do espaço comercial de arquitectura duvidosa duas sapatarias, a Foreva e a Hellius, na qual em tempos satisfiz alguns caprichos sapatais, mas nada. Dois pares de botas giras porém fora do meu objectivo. Mas estou já cá fora, por entre a chuva trucidante e toca de penetrar no espaço comercial que se segue. Mesmo filme, estarei a sonhar? Terá sido o mesmo arquitecto o responsável por tão desconcertante construção? Julgarão eles profíquo este tipo de estrutura geradora de paranóia desesperante? Terão eles em mente um raciocínio perverso do género "tantas vezes deparará a Calamity com esta mesma loja que acabará por entrar e comprar a peça mais fora de orçamento que conseguir encontrar quanto mais não seja porque acabará por acreditar que só assim conseguirá quebrar o feitiço e descobrir o caminho para o outro lado do centro comercial?" Sim, porque eu ainda acredito que aquele centro comercial tinha um outro lado ou terei sido induzida em erro por uma ilusão de óptica daquelas causadas por um jogo de espelhos colocados tão estrategicamente que não dei com as trombas em mim própria nenhuma vez embora tenha passado seis vezes frente à mesma montra onde umas botas quase-quase a meu gosto me eram ofertadas a troco da módica quantia de 647 euros (mas com 30% de desconto, atenção!!!).

Amazing


(imagem daqui)

Porque postar sobre frivolidades (ao que parece) é sempre garantia de sucesso

A vossa Calamity também tem um lado fútil, quanto mais não seja porque todos temos de andar vestidos e calçados - pelo menos com este tempo de m - e já que é assim, ao menos que seja com uns trapitos engraçados e apetrechos a condizer. Nunca fui muito de modas, quer dizer, se tivesse dinheiro, mas dinheiro a sério, talvez fosse mecita para comprar umas peças de roupa daquelas que se vêem nas Vogues e Marie Claires da vida, que são sempre de um corte, textura e cor irrepreensíveis e que custam cada uma o mesmo que eu levo dois ou três meses a ganhar. Mas como, claro está, apesar de eu frequentemente repetir que nasci para ser rica, os deuses parece que, além de loucos, andam distraídos, faço como (quase) toda a gente e reduzo-me à minha insignificância, o que, trocado por miúdos, equivale a dizer que vou ao chinês durante o ano todo e aos saldos quando manda a lei que eu cá sou uma cidadã respeitadora dos bons costumes. Mas ia dizendo que não vou muito em ondas e, além disso, em certas coisas serei eternamente freak. Gosto de saias compridas e esvoaçantes desde que me conheço, assim como, por mais que me esforce (tipo de 5 em 5 anos), nunca consegui usar saltos altos durante mais de quatro horas seguidas. E não é que não saiba andar com eles, que graças a deus nosso senhor fui prendada com a graça e a elegância natural de uma Ingrid Bergman (no mínimo). É pura e simplesmente porque não tenho pachorra! Gosto de sentir os pés no chão ou então de levitar declaradamente. Agora o cansaço que provoca uma incursão à rua, mesmo que não tenha de deambular por entre a nossa bela calçada portuguesa, com tudo o que ultrapasse os 3/4 centímetros de altura não vale o meu conforto, o qual, aproveito para referir, é condição sine qua non para usar seja qual for a peça de roupa. Daí que, seja qual for a moda vigente, a vossa Calamity nunca (mais) usará tops em cai cai, calça de cintura a meio dos pêlos púbicos (estas duas nunca usei que não sou masoquista e além disso tenho espelhos em casa), roupa demasiado apertada, cueca de fio dental (um dia escreverei uma posta sobre este item, mi aguardem), nem botas de matar as baratas aos cantos das salas.
Mas, claro está, e as inúmeras e incontáveis (porque os poucos dito-cujos do sexo masculino a esta hora já fugiram a sete pés deste vosso humilde tasco) habituées estão fartinhas de ter percebido, todo este longo preâmbulo não tem (quase) nada a ver com o que eu queria dizer de modos que as meninas desculpem qualquer coisinha e eu vou fazer os possíveis por ir directa aos finalmente que, para preliminares, a malta prefere aqueles... enfim, pronto, as meninas sabem, os meninos deviam saber e deixo este assunto para outra posta também...
Portanto a vossa Calamity de vez em quando lembra-se de ir aos saldos. Há dias fui ao Centro Comercial das Amoreiras e saí de lá muito satisfeita com calças para toda a família, um camisolão para mim, um vestidinho/túnica idem idem aspas aspas outro para a mini mas nada daquilo que eu realmente preciso e ia à procura e eu já sei que é mesmo assim, a malta precisa de uma coisa e vai à procura e vem sempre com montes de coisas menos aquilo que procurava. O chato nisto é que o que eu preciso é mesmo aquilo que na imprensa da moda se chama básicos e que desde sempre foi para mim o mais difícil de achar a não ser que esteja disposta a pagar a pele do cu ou o equivalente a dois ou três salários. Básicos do mais básico que há: umas calças pretas, um casaco preto, umas botas pretas. Dito assim até parece que voltei aos tempos góticos e que ando de olhos fechados, pois básicos destes abundam por aí, mas a verdade é que, como já dizia há tempos numa proverbial posta que muitas mentes abanou e cujo link já vou ali buscar que não que vos falte nada, existem poucas missões mais difíceis, nesta complexa arte de ir aos saldos (e até me atrevo a dizer: "de ir às compras tout court") do que achar peças básicas normais, cortes a direito, sem arrebiques nem mariquices. Quero umas botas pretas de pele macia, bem justinhas no cano, com salto baixinho ou até sem ele, confortáveis e que não sejam quadradas nem bicudas nem redondas. Bem posso ir procurá-las em Marte!
Aproveitando a hora de almoço na zona de Picoas, lembrei-me que há coisa de quatro anos, comprei umas bem a meu gosto e que ainda hoje usaria se não tivessem sido atacadas pela traça da pele (bicho que eu ignorava que existia mas que é a única explicação plausível que encontro para o facto de me ter deparado com as mesmas todas esburacadas no início do inverno passado) num espaço comercial denominado Atrium Saldanha ao lado do qual existe mais um com um nome parecido e em frente outro ainda, de modos que pensei com os meus atacadores (hoje não trago botões): "Vou ali que já lá comprei umas botas pretas muita giras a um bom preço e se não encontrar ali tenho mais dois centro comerciais onde, bolas, tenho de encontrar o que procuro". Diga-se de passagem que já corri Campo de Ourique inteiro mais o referido Shopping das Amoreiras sem achar as benditas botas. Mas fui, apesar de chover baba e ranho e de eu não ter guarda-chuva já que hoje de manhã por mais que procurasse por toda a casa não achei se não um da Minnie e da Margarida, que teria trazido comigo caso 1) me cobrisse mais do que a auréola que trago sempre comigo, já que tenho também mala, casaco largo e botas (não comecem que estas são castanhas!!!); 2), tivesse um cabo com mais de vinte centímetros de comprimento de forma a poder afastar o objecto do meu crânio e 3) (o mais importante) condissesse (ah pois, é assim mesmo que se diz, tenham lá santa paciência...) com a roupa que trago hoje que eu não sou fútil mas tenho noção do ridículo. Minnie e Margarida, sim, mas a fazer pandã (esta não sei mesmo como se escreve).
(continua assim que chegar a casa que se passo mais um dia sem fraldas para colocar à Mini-Calamity de noite e tenho de novo de acordar às quatro da matina para trocar pijamas e lençóis e lavar pernocas enxarcadas em xixi vou ter uma crise de nervos)

1/13/2009

Obrigada

minha índia do outro lado do Atlântico. Sempre soubemos que a nossa amizade era para toda a vida. 16 anos sem nos vermos... e falar contigo foi a confirmação da dimensão transcendente da existência. Obrigada por me recordares daquilo que o meu íntimo sabe mas que sou por vezes demasiado preguiçosa para pôr em prática. Obrigada por, como o rei Mufasa, me "lembrares de quem sou". Obrigada por brilhares no meu firmamento cumprindo o que combinámos, no longínquo verão de 1983 (!!!). A canção (seria o seu nome mera coincidência?) está hoje mais viva do que nunca.

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam "não"
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

(Canção Da América de Milton Nascimento e Fernando Brant)

1/12/2009

Mais Calamidades

I've got the blues

e isto é para não estar a conspurcar este respeitável estabelecimento com as palavras que me apetece dizer - e que porém não me aliviam dos sentimentos penosos que me assolam - e assim afastar (ainda mais) a parca clientela que ocasionalmente ainda vem cá beber um cafézito

E eu não queria ser malcriada e estar a falar tão alto mas até a merda do blogger está contra mim e não publica como eu quero por isso se me dão licença vou ali atirar-me da janela do rés-do-chão



1/07/2009

O tema do ano

Sabemos que estamos perante uma grande canção quando

- Mães e filhos a cantam em coro e dançam juntos;
- pressentimos que daqui a vinte anos continuaremos a cantá-la;
- não conseguimos evitar cantá-la quando a ouvimos num autocarro da Carris.

I'm Yours é o tema do ano de 2008. E mai nada.

Alguém me explica

Como raios se põem aquelas lindíssimas listas de blogs do lado direito da página com indicação das actualizações mais recentes e já agora também como se colocam links (não é endereços html, é linkinhos bonitinhos daqueles sublinhados e que mudam de cor quando os abrimos, tal qual aqui nas postas) nas caixas de comentários, pleeaase! (Sim, sim, eu sei que nesta altura do campeonato sou o único ser blogante que ainda ignora estas subtilezas....)

1/05/2009

11 coisas que me fazem ir aos arames

(sim, sim, alterei a posta... faltava-me um item importantíssimo, que estava, aliás, na génese deste 'top' e não me apetecia prescindir de nenhum dos outros...)

1) Estender a roupa lavada lá fora porque o céu está limpo, virar as costas e desatar a chover;
2) pessoas que começam a buzinar assim que vêem um carro a estacionar, sair do estacionamento ou fazer inversão de marcha;
3) empregados/donos de café armados ao pingarelho que colocam com ar emproado aquela questão estúpida que deve ser o único dilema existencial da sua triste passagem pela vida terrena: "um copo de água ou um copo com água???";
4) perder diante do meu nariz um autocarro que só passa de 15 em 15 minutos;
5) frases iniciadas pelas palavras "eu cá não sou racista mas" e discussões inúteis despoletadas por alarvidades do género;
6) dar por mim a cometer com os meus filhos os mesmos erros que sempre me enfureceram/entristeceram da parte do meu pai;
7) dar (ainda mais) dinheiro ao Estado (ou PT ou EDP ou EPAL ou quejandos - e o que eu gosto de dizer quejandos!...) porque, por esquecimento, deixei passar (outra vez) o prazo;
8) ser tão perfeccionista e exigente comigo própria que acabo por preferir não fazer as coisas a fazê-las mal/à pressa;
9) ser tão auto-indulgente que finjo que acredito na treta acima mencionada;
10) mulheres que dizem obrigado (sobretudo quando, em teoria, a sua profissão implicaria um melhor conhecimento do Português) e homens que dizem obrigada (se bem que a esta variante não consigo deixar de achar alguma graça...);

e last-but-definitely-not-the-least
11) pessoas que não separam o lixo


e muitas outras mas o título dizia 10, passou a dizer 11 quando me apercebi da falta do item mais importante, e vou respeitá-lo (ao título, claro)

(próxima posta, para ver se me animo um pouco neste dark dia de início de ano: 10 coisas que me fazem feliz... por agora vou ali e já venho)

12/26/2008

E mais estes...

O Natal foi ontem, mas estes 'presentes' já estavam em marcha desde o início de Novembro, de modos que aqui estão os restantes premiados com o bendito dardo... Onde é que eu ia, mesmo?

Carlota, o teu bom gosto e sentido estético são um bálsamo para os olhos e não só. Cuidas do teu tasco com o carinho com que um jardineiro trata do seu jardim e foste capaz de o tornar num must. Sei que arranjarás um recanto jeitoso para colocar este dardo que te dou.

Sinapse, tenho saudades de te ler e de ver com mais frequência por aí (e por aqui!). És uma mulher cosmopolita e possuis alma de repórter. Tens sempre algo de interessante para dizer/contar e fotos lindas ou peculiares para partilhar. Segue um dardo direitinho para os States...

Allo, Cool, minha contemporânea. És a confirmação da qualidade desta safra (69). Admiro-te porque consegues ter três filhas, manter o nível de actividade, divertir-te qb e ainda estar sempre em cima do acontecimento. És uma mulher atenta, do teu tempo e tens sempre uma ligação html para dar a conhecer à malta. Contigo, a blogosfera é um livro aberto.

Flores, o teu Frald(i)ário é um dos registos mais honestos e lúcidos da chamada 'babyblogosfera'. 'Conheço-te' há relativamente pouco tempo mas gosto de ti. Mais, és das minhas, minha!

Aenima, minha menina. Sinto-te muito murchinha. Gostava de reencontrar a Aenima mordaz e acutilante de tempos não assim assim tão recuados. Volta, amiguinha.

Shark, a mais recente aquisição aqui do tasco. Contigo, nem houve tempo para estranhezas. Entranhei-te logo. És dos (muito poucos, mesmo) que visito incondicionalmente assim que posso carregar noutra ligação para além do email. As cabras do teu curral são também das minhas, mas já receberam o prémio, bem merecido, por sinal. Serve, ao que parece, o Dardos" para, entre outras coisas, ampliar os nossos horizontes na imensa blogosfera e sendo assim, reiterar o galardão não faz sentido. Além disso, tenho um fraquinho por tubarões meigos. ( E, aqui entre nós, estou desconfiada que fomos irmãos numa encarnação anterior...).

Havia mais gente que eu gostaria de contemplar com este prémio (e ainda três dardos a atribuir, segundo as regras do dito, ler nota de 'rodapé') mas não o farei. Uma das candidatas abandonou o blog há cerca de dois meses e nem sabe que sou cliente do tasco dela. Tenho pena de a ter descoberto tardiamente mas vou espreitando e se ela voltar dar-lhe ei um dos dardos que sobra. Outra é ainda demasiado recente e não me sinto em pé de igualdade com ela, uma vez que eu sei quem ela é mas ela ignora totalmente quem eu seja. Enquanto a 'igualdade' não for reposta parece-me desadequado premiá-la. Embora, lá está, também o mereça. Outra(o)s já 'desertaram a blogosfera há mais tempo. Mencionei-os na posta anterior e só me resta desejar que 2009 seja o ano do seu regresso pois fazem muita falta por aqui. Há uns tempos, li por aí que "esta é a verdadeira comunidade". Infelizmente já acreditei mais nisso que neste preciso instante, mas pode ser que volte a senti-lo...

"Until then, good night" (e bom ano, se não nos virmos antes)

Notinha de rodapé:

Regulamento do Prémio Dardos

"Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada bloguer emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloguers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
As regras para receber o prémio:
1) Exibir a imagem do selo;
2) Linkar o blog pelo qual recebeu a indicação;
3) Escolher 15 outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos;
4) E avisar todos, claro!"

(Bute lá então...)