10/12/2007

Buacos e buaquinhos, fuínhos e crateras

Ia hoje no autocarro quando tive uma visão do inferno. Felizmente existem os blogs qu'é prà malta exorcizar estas coisas, qu'ó senão ficam aqui dentro a modos qu'a torturar a malta por dentro e ós pois a malta nã consegue concentrar-se noutras coisas que não seja no rachataparta da imagem que ficou a trabalhar-nos a mioleira, ó cum catano...
Mas ia eu no autocarro, que, como vós, inúmeros e incontáveis bem sabeis, é local propício à observação científica do bicho-homem nas suas diversas manifestações, especificidades e bizarrias. O espécimen ia mesmo à minha frente, o que me permitia contemplá-lo nos seus vários ângulos, à medida que ele fixava o horizonte ou espreitava alternadamente à esquerda e à direita.
E, inúmeros e incontáveis, que deuxnoxenhor me perdoie, mas às vezes, acho que debia d'haber assim a modos qu'uma autoridade que pusesse alguma ordem nisto, qu'a malta precisa, pra poder trabalhar no dia-a-dia, de alguma tranquilidade e até diria serenidade de espírito e assim, inúmeros e incontáveis, desculpai-me lá o desabafo, mas definitivamente assim não há condições e sobretudo, num habia nexedidadejejeje.
Eu cá devia ter uns 15 anitos quando furei a orelha direita, e foi um furinho maneirinho e óspois passadas umas duas semanas apercebi-me de que a malta quando olhava pra mim, via-me de forma diferente daquilo que eu me via no espelho, ou seja, o meu lado direito passava pró lado esquerdo e versa-vice, isto é, a bem dizer tinha-me enganado e o que eu queria furar era a orelha esquerda e vai daí, pimba, fui à ourivesaria, que era onde naquele tempo a malta furava as orelhas, que naquele tempo a bem dizer, ainda não havia destas modernices de furar narizes e umbigos e outras partes qu'o pudor não me deixa designar aqui neste espaço de total recato e fui então à ourivesaria e vai daí, pimba, furei a outra orelha. Vai daí uns meses ou, vá lá, um anito depois, como eu gostava muito de usar brincos e tinha muitos e andava naquela onda de ser diferente e apreciava uma certa assimetria que associava à criação de uma imagem de rebeldia e originalidade e vai daí, pimba, fiz mais um furito, se não me engano outra vez na orelha direita, mas isso agora não interessa nada. Isto era só pra dizer que me fiquei por aí em matéria de autoperfuração, mas desenganai-vos, inúmeros e incontáveis, se julgais que tenho algum preconceito em relação aos piercings. O meu sentir em relação a tão fascinante e mui nobre assunto de divagação é tão-somente que, aqui como noutros lugares, há - ou deveria haver - um certo sentido estético na arte de bem furar e que há visões que, por assim dizer, ofendem a minha noção de belo e, ouso até dizê-lo, me deixam a pensar que, por vezes, deveria haver mais cuidado com a vista das pessoas que nos rodeiam. Quer dizer, há criancinhas, há velhotes, há pessoas que sofrem do coração e eu não desejaria ser responsável por nenhum enfarte do miocárdio. Nunca esquecerei o susto que preguei à minha velhinha tia-avó, no dia em que a senhora avistou o piqueno espermatozóide que eu usava na orelha esquerda e julgou que eu trazia ali um bicho. Nem a gargalhada singela, franca e aliviada que largou, ao compreender que se tratava afinal de um inofensivo e prateado brinco...
Pois eu gosto de ver um nariz bonito ornamentado de um discreto brilhante ou até uma sobrancelha arvorando uma argola de prata. Admito, embora não lhe entenda o atractivo, que certas pessoas se excitem com o uso de jóias nos mamilos, clitoris e até testículos e pénises (sim, sim, inúmeros e incontáveis, lestes bem, pénises). Agora desculpai-me, mas quem irá suavizar aquela visão do inferno que consiste em avistar de ambos os lados de uma cabeça humana, e no lugar onde deveriam estar dois lóbulos de orelha, pedacitos de carne que, em caso normal não mais medem do que escassa dezena de milímetros de diâmetro, um buraco, perdão, uma cratera na qual se conseguiria fazer passar deixando larga margem uma moeda de dez escudos das antigas??? Digai-me, inúmeros e incontáveis, haveria lá nexexidadejejejeje??? E agora? Que vou eu fazer? hein? Como irei eu esquecer??? Poderia jurar que, espreitando por tal orifício, consegui a determinada altura um grande plano de excelente legibilidade da totalidade da manchete, vulgo parangona desse grande monumento à discrição e à letrinha miudinha que dá pelo nome de 24 horas. E quem o lia seguia dois lugares à frente...

PS - qu'é como quem diz Posta Escrita, qu'é como quem diz Lasta mas não Lista: Dedico esta posta à linda Azulinha. Ela sabe porquê...

13 comentários:

Cool Mum disse...

Com uma lente bem aplicadita até servia de lupa :D

Luz de Estrelas disse...

Eu já me parti a rir com o texto (soberbo) e vai a Cool ainda me diz mais uma destas! AHAHAHAH. Clara, filhinha, deixa-te estar quietinha. Se ainda tivesse abdómem juro que me tinha ficado a doer. Lolol. Eu pousava lá o cigarrito, pronto. Ou então debruçava-me nos buaquinhos para espreitar o Tejo.

AEnima disse...

ihihih... uma moedita de 10 escudos ate nem e' nada mau perante o que tenho visto ultimamente. Ja vi coisa que servia para levar la uma refeicao completa, tal era o diametro do prato!

Outra coisa que nao gosto mesmo la nada de ver eh, para alem do corpinho TODO tatuadinho, tatuarem tambem a cara, com enfeites mil, parecem que sairam de um casamento bengali... mas aquele coisa para eles fica a vida inteira. Porra que ha de ser lindo com 60 anos os netos perguntarem... "oh vo, porque nao tiras essas verrugas 'a volta dos olhos?"

E olha que gosto mesmo de tatoos... algumas... ate estive varias vezes para fazer. E furei a orelhita esquerda com 4 furos logo aos 12 anos, mal sai do colegio de freiras e o umbigo aos 14, que teve que ser na inglaterra que em portugal nao havia dessas modernices tambem.

Melões Melodia disse...

Criaste-me um problema... ja nao me lembro como eram as moedas de dez escudos... vou googlar para ver se me lembro e tenho alguma ideia do tamanho do orificio...

Caracoleta disse...

Este texto está espectacular. Já me fartei de rir com ele!
O que eu ando a perder por não andar de autocarro, lol!
Beijo

Luz de Estrelas disse...

Esta ponta de estrela vai retirar-se para uma concha. O elo permanece mas invisível. Mudarei quando trocar de pele. Gosto mt d ti cj.

125_azul disse...

Ganda maluca! Muitos mercis! Nem a propósito, a minha posta de hoje é sobre a minha viagem de metro na sexta-feira. Mas juro que se tivesse lido esta primeiro, não escrevia! A minha aventura não se compara à tua. Soberbo. Beijinhos, boa semana, não te percas de nós, não desapareças!

Tuxa disse...

O que eu ja ri sozinha! Lindo!
E o comentario da cool mum esta demais...

patrícia disse...

AHAHAHAH, é realmente de muito mau gosto (esses buracões e aqueles brincos tão grandes e pesados que puxam as orelhas até ao ombro), mas ao menos serviu para escreveres um post fenomenal

Amélia do Benjamim disse...

São artefactos fora do (meu) contexto antropológico...
:\
Os parafusos na sobrancelha ou anéis na junção das narinas, para além de inestético, parecem-me agressivos...

chiqui disse...

lindo, lindo!!
(a certa altura do texto tive que por a mao na boca para nao me toparem a fazer gazeta ao trabalho durante o expediente ;))
Sabes, ainda esta manha parei num sitio novo para o meu cafezinho (velhos habitos nunca se perdem). Entao nao e que o rapaz que me serviu estava tao mas tao fuadinho que eu nem o ouvia. so conseguia olhar para oso buaquinhos todos.
lol
beijos enormes d'america
(obrigada pelas risadas a socapa)

Mãe Frenética disse...

Ahahahaaha!!!

Carla & Repolha disse...

Buracos alheios não me incomodam - nem me chamam à atenção. Mas acho que a partir de agora não vou conseguir para uma orelha esburacada sem me lembrar deste belo depoimento e rir-me que nem uma perdida lol

bjs linda

repolha