12/11/2008

"A mãe deixou cair o jantar e depois chorou"

O mês de Dezembro é particularmente stressante. Além da confusão natalícia, à qual, diga-se de passagem, nem sequer me associo muito, há os aniversários dos dois calamitosos e o meu, para além dos dias muito curtos, frios e chuvosos que me deixam especialmente em baixo e/ou irritadiça. Depois, o maldito trânsito. Ir a Campo de Ourique (o que faço quase todos os dias) nesta altura do ano é um verdadeiro suplício para quem tenha de deslocar-se de automóvel (o que é o meu caso) e o queira fazer com relativa rapidez (sem dúvida eu, embora de todo impossível).
Os condutores natalícios são uma raça que devia ser exterminada. Conseguem ser vinte vezes mais exasperantes do que o pior dos condutores de domingo, incluindo aqueles de chapéu, os que passaram a manhã toda a polir a viatura que por sua vez dormiu a semana inteira escrupulosamente coberta por um oleado de corpo inteiro... Adiante. Odeio o bulício naftalino, detesto esta azáfama histérico-consumista, abomino as filas para estacionar, desestacionar, pagar uma merda de um pacote de manteiga num qualquer supermercado, a música de natal no Centro Comercial das Amoreiras, o povinho embasbacado frente às montras, acotovelando-se nas lojas chinesas para conseguir as pechinchas mais parecidas com artigos de griffe. Entro em descompensação quando ouço na TV aquelas cantilenas intermináveis em torno do mesmo hipnótico assunto: compre, compre, compre. Dois pelo preço de um, três pelo preço de quatro, meia-dúzia porque o prazo acaba já amanhã mas isso não interessa nada, o que é preciso é consumir, a malta tem é de gastar dinheiro, que é o que nos faz sentir vivos, ah pois é, mesmo que se chegue a casa duas horas depois do previsto e com tudo por fazer, cozinha num esterco, jantar por inventar, à beira de um ataque de nervos e com os putos numa excitação incontrolável.
Pois foi mesmo assim que a vossa Calamity alcançou o doce lar ontem à noite, quer dizer, pouco passava das 19h00 e não vinha das compras, vinha sim, de tentar passar incólume por todo o delírio à minha volta e até tinha conseguido contornar a necessidade de ir ao supermercado e enfrentar dez pessoas em cada caixa por duas simples postas de peixe, porque tinha trazido de casa dos meus pais uma bela posta de bacalhau já assada, posta essa que pretendia desfazer para cima de um refogado de cebola, azeite e alho, ao qual iria acrescentar uns espinafres e umas batatas que já estavam cozinhados no frigorífico. Uma magnífica meia-desfeita, pois então, que ia ficar pronta num instantinho, não obstante o verdadeiro pânico em que se encontrava a cozinha e o estado da minha filha que se assemelhava a um gremlin provindo de Marte (que, toda a gente sabe, é o planeta de onde vêm os homens e também o nome do deus da guerra na mitologia romana e mais não digo).
Pespego então com a catraia na sala em frente ao abençoado VHS dos Três Porquinhos que conservei religiosamente de uma cria para a outra, despacho a loiça suja e os balcões à velocidade da luz e começo a confeccionar o petisco cerca das 19h30, enquanto dizia de mim para comigo que, finalmente, this is the day, vou conseguir dar banho e de comer a esta criatura às horas que preconizo e antes das nove da noite estará no segundo sono ou eu não me chame Calamity Jane.

Pois bem, a verdade é que não me chamo Calamity Jane (e desde já, as minhas mais sentidas desculpas a todos os inúmeros e incontaveis que neste momento estão inconsoláveis com esta terrível revelação).
A cebola em meias-luas já dourava na frigideira, acompanhada do alho e eu debatia-me com o dilema de querer saltear ligeiramente as batatas antes de colocar as lascas de bacalhau, mas de, ao mesmo tempo, precisar de aproveitar a gordura do bacalhau para que o resto não pegasse e enquanto me ponho colocar umas e outras de forma estratégica para conseguir todos os meus intentos de forma concertada, eis se não quando deixo escapar uma ridícula partículo do precioso peixe para sobre o imaculado fogão

( e antes que me chamais a atenção para a aparente contradição entre o que estou a afirmar agora e o facto de ter alegado que a cozinha se encontrava em risco de ser chumbada pela ASAE, direi em minha defesa que, efectivamente, o fogão era a única superfície da divisão que parecia um espelho de tão limpo - agora já não é o caso, mas enfim, já ides perceber...)

e, obsessiva como sou e tenho mais é que admitir, resolvo - ó atrasada mental!!! - apanhar a referida migalha para a colocar de novo na dita-cuja frigideira que, na delicada manobra, escorrega e, tal pão de pobre já devidamente amanteigado, e confirmando definitiva e inequivocamente a famigerada Lei de Murphy, se estatela toda junta no meio do chão, óbvia e totalmente virada para o lado de baixo, arruinando sem dó nem piedade o almejado e já cheiroso jantar e com ele a minha alma em cacos.

Podeis rir, inúmeros e incontáveis, mas eu chorei. Sentei-me no chão (nojento) da cozinha e solucei como um bebé. E veio o meu menino consolar-me e oferecer-me a sua ajuda, que recusei. Amoroso, usando todos os ternos argumentos que coleccionou em quase onze anos de existência com as respectivas crises para me colocar de novo um sorriso nos lábios. E veio a minha menina e era nítida a sua aflição com a mãe chorosa. "O que tens mãe, o que foi? Porque estás a chorar?" E vieram ambos com rolos e rolos de papel higiénico nas mãos, querendo absorver com ele toda a tristeza do universo (e tê-lo-iam feito, não duvido, fá-lo-ão com toda a certeza). "Não faz mal, mãe, já passou"...

E claro que passou. Claro que se arranjou jantar. Claro que ficou óptimo e toda a gente se deliciou (pronto, a quantidade já não foi tão abundante, mas ninguém ficou com fome). Claro que se limpou o chão e as lágrimas. Claro que a MiniCalamity se deitou já depois das nove. Com mimos, história e duas chuchas, como todas as noites. E claro que hoje de manhã lhe custou a acordar embora não tanto como eu esperava.

E, enquanto tomávamos ambas o pequeno-almoço à mesa da cozinha, o filme da véspera veio à tona. Afinal, uma história simples de contar, nas palavras de uma menina, sem adjectivos nem floreados:

"A mãe deixou cair o jantar e depois chorou"...

21 comentários:

Amélia do Benjamim disse...

Se a placa do fogão não estivesse a brilhar, tu não tinhas a tentação de ir lá resgatar o pedaço!!

Estou mesmo a imaginar a Ferreira Borges no Natal... pois, só não se estaciona em cima das árvores porque elas cresceram...

Condutores de chapéu... ornamentado com uma peninha, ou duas.;P

Beijinhos

Carlota disse...

Percebo-te tão bem! A sério.
Também me acontece, às vezes, qualquer coisa que em vez de despoletar uma série de palavrões, acaba em ataque de choro/fúria.
Afinal, não somos de ferro.
E os teus piquenos são uns fofos.

Tita disse...

"Quanto mais depressa mais devagar" e é tão certo!
Sou tal e qual, tantas são as vezes que venho no carro e nas filas da cidade deparo-me a olhar a pessoas a atropelarem se umas ás outras, ás pressas... tantas vezes esquecidas delas próprias....
Nada como o supermercado pequenino da esquina ainda com a balança de pesos, a peixaria, o talho e a frutaria ali ao lado do meu local de trabalho que me poupam o tempo das grandes superfícies. No salto na hora do patrão faço as comprinhas num piscar de olhos. Salve!
Ao bacalhau, para a próxima refogas num tachinho com um pouco de cebola, alho e louro, um pouco de calda de tomate. Deixas refogar, colocas água fervida e massa cotovolinhos para dentro. Jantar feito num instante.
:D

Cool Mum disse...

Adorei o relato.
O episódio em si, pois mais uma constatação da Lei de Murphy, provavelmente a verdade mais absoluta do universo.

flores disse...

...mas dps vieram os miminhos e ficou melhor.

Luz de Estrelas disse...

Eu rio-me, eu compreendo-te, eu delirei com este episódio na vida de uma gaja mãe, porque imaginei tudo segundo a segundo. E mesmo vendo-te desconsoladinha a chorar no chão, a lavar a alminha, e os teus filhos carregadinhos de mimos, não pude evitar sorrir. Não é de ser má, é que foi ternurinha mesmo. A simplicidade da CJzinha prova a forma doce como eles encaram o mundo, em relação directa de causa- efeito. Se uma pessoa chorasse só pelo jantar no chão ou a garrafa de azeite partido. Mas às vezes aproveitamos os incidentes para chorar por tudo o resto.

Cristina disse...

Adorei a descrição... E a visão dela... Afinal, eles compreendem tudo tão bem!

Cristina

Tita disse...

Tive que voltar cá para te ler...

Sílvia (hoje é...) disse...

Já ri e já chorei e ri outra vez.
A famigerada Lei de Murphy...
"...bulício naftalino..."?!! lol
Beijinhos.

Monikyta disse...

eu [ainda] gosto do natal, não do bulicio, não do consumismo..mas porque desde há 10 anos q me lembra que é a hora de "voltar a casa", perto da familia que são, sem duvida, a melhor prenda. Agora junta 3 anos sem isso e imagina o turbilhão de nervos em q me encontro...

...tb acho, cm a amelia do benjamim, que se o fogão não estivesse tão limpinho, n irias lá buscar o pedacito...

e chorar faz sempre bem, lava a alma - dizem os entendidos, e o mimo que levaste a seguir (e a não repreensão, mm dos filhotes) é deliciosa...

melhores dias, pq ainda faltam 18 dias para Dezembro acabar...

bj meu

Mae Frenética disse...

Amei este texto.
E eles, partem-nos o coração com as suas revelações.

Aqui há uns tempos tive uma crise de nervos semelhante com eles os dois. O meu marido so chegou umas 2 horas depois mas a primeira coisa q o mai velho lhe disse, ainda nao tinha tirado a chave da porta foi:"papá, a mamã chorou!"

E o comércio, q exagero... eu nao sei como ha tanto dinheiro, confesso, nao sei... faz-me impressao e cansa-me, como a ti.

(e as datas das festas? Oh pá eu sou uma nulidade, mas tu ate podias ser amiga e mandar-me os aniversarios por email...)

flores disse...

Congrats. Espero q o jantar de hoje ñ tenha caído ao chão, ou pelo menos q não te tenha levado às lágrimas (e se levou q fossem só de felicidade. :D)

Parabéns ao CJjúnior!

Músico Guerreiro aka Melões disse...

So para ouvir essa frase, deixaria cair o jantar todos os dias
Beijos

Anónimo disse...
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Huckleberry Finn disse...
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Luz de Estrelas disse...

Parabéns ao teu borracho, sim? Beijo grande

Pitucha disse...

Coitada! Olha, toma lá uns lencitos de papel e uns pastéis de nata acabadinhos de sair do forno. Os pastéis de nata e os carinhos dos dois pequenos... é sorriso garantido.
Beijos

ritmargaride disse...

Pronto á passou...

Pior do que os malucos obsecados com as compras de Natal só mesmo os francius no mês de Agosto:S

Bjkas

Amélia do Benjamim disse...

Beijinhos para ti e para o teu fofinhoooo!

flores disse...

Parabéns! E q o jantar de hj corra o melhor possível.

Madalena disse...

Minha querida Cê, um dia os minis vão recordar este jantar como a maior prova de amor. Se eu estivesse ao pé de ti, eu não conseguiria consolar-te melhor. Eu quase choro de emoção, pela ternura deste relato. O verdadeiro Natal é a ternura dos teus minis. Pacotes e pacotes de beijinhos, abracinhos, festinhas no cabelo, no braço,mimos, mimos, mimos, para eles. Eles depois fazem fwd para a mãe!