4/05/2006

Tenho um nó na garganta

Quando criei este blog tinha como principal intenção fazer deste um lugar de desabafo. Há tanta coisa a que a gente assiste calada, ou se manda vir é por que é refilona, ou porque nunca está satisfeita ou porque isto ou porque aquilo. A ideia era ter um espaço que fosse meu, mas onde outros também seriam bem vindos, mas um espaço para dizer de minha justiça. Um jornal onde o editor fosse eu. Onde ninguém me dissesse "isso não interessa nada, filha", ou "ninguém quer ler isso", ou ainda, "o que os leitores querem é"... Aqui quem não gosta não vem e pronto. Claro que não tenho muitas visitas, nem muitos leitores, mas, enfim, isso também agora não vem ao caso.
Dizia eu então que criei este blog pra falar do que me apetece e normalmente é sempre para cascar nalguma coisa, e neste país à beira-mar plantado há sempre tanta coisa para cascar que o difícil mesmo é escolher. Por dia penso em dezenas de coisas que gostaria de comentar aqui, mas infelizmente (ou felizmente talvez), o tempo não dá pra tudo, aliás, o tempo não dá mesmo é para nada e muito fica por dizer.
Depois de criar o blog (ou até mesmo quase "enquanto" o criava) fiquei grávida e outros valores se levantaram. Passei então a estar muito menos disponível mentalmente para cascar e muito mais concentrada noutras coisas; primeiro, nos enjôos e sonos e cansaços, depois no verão, na barriga, nas roupas para mim e nas "festinhas" internas e mais tarde nos pontapés internos, na barriga, nas roupas para ela, nas minhas mãos dormentes, na falta de sono reparador, nos trabalhos por terminar, no outro filho a reclamar atenção, na hora que não havia meio de chegar e no meio de tudo também nos blogues dos outros e sobretudo das outras. A gravidez direcciona as nossas atenções para tudo o que a ela está ligado: primeiro, os sinais/sintomas de gravidez, depois, as eventuais complicações, as ecografias, as consultas, mais tarde ainda, as contracções, a PPP, os sinais de parto, etc, e, neste percurso, fiz-me acompanhar por alguns dos inúmeros blogues de futuras mamãs e recém-mamãs que povoam a blogosfera, para além, claro, de outros tantos sites, livros e revistas, isto porque, além de grávida encontrava-me por volta das vinte e tal, trinta semanas a fazer um trabalho sobre gravidez que necessitava muita pesquisa e como tal, ia juntando o útil ao agradável.

Quando recomecei a escrever no blog, por influência das minhas leituras e, sobretudo, por incentivo de uma bloguista da nossa praça que muito aprecio e recomendo, tive a tentação de "seguir a maré" e também começar a escrever sobre a minha menina recém-nascida e sobre o meu menino já crescido, mas depressa conclui que não era essa a vocação do blog. Há tantos blogs que preenchem (e tão bem!) esse espaço na blogosfera que, francamente, não queria ser mais um(a). Achei, e acho que posso fazer outra coisa. No entanto, hoje quero e vou abrir uma excepção porque tenho um nó na garganta. Sei que não vou conseguir desfazê-lo mas preciso de escrever isto.
Já perdi pessoas que amava na minha vida. Já chorei por pessoas que nunca mais verei a não ser em foto. Que nunca mais tocarei. Cuja voz nunca mais ouvirei. Todos os dias penso nelas, embora algumas já tenham partido há tanto tempo que me custa reconstituir cá dentro o seu sorriso, o seu andar, o seu cheiro.
A cada vez que te visito, penso nelas e choro por elas. E também por ti e pelo teu anjo. E, desculpa-me se leres isto e se te vou magoar, mas tudo o que me apetece fazer é pegar no meu menino e na minha menina e apertá-los com toda a força do mundo junto a mim para que fiquem sempre comigo. Para sempre. Para sempre.
Desculpa-me, mãe que ainda não o foste mas para sempre o serás. Mas ao ler-te não consegui fazer mais nada. Peguei só nele, porque ela dormia. Levei-o ao café. Paguei-lhe o lanche que ele queria. Amei-o silenciosamente. Contemplei-o uma e outra vez. Deslumbrei-me vezes sem conta. Disse-lhe que o amava. Abracei-o. Retive as lágrimas. Agradeci a "deus" ou seja lá o que for. Continuo com um nó na garganta.

11 comentários:

Carla & Repolha disse...

Acho que é um nó que não vai desatar em muita gente tão depressa... beijinhos

Mãe Frenética disse...

Certo é q esse nó nunca desatará na garganta dela...
Mas posso dizer, com certeza, que vai ficando mais "frouxo" o nó.
Há q ter esperança...

Filipa disse...

puxa...eu também...
o nó não sai, dou por mim a pensar nisso a meio do dia e a ficar com os olhos alagados...e acho que até já olho para a Matilde de maneira diferente!
Apesar de tudo, penso que ela tem sido muito forte...só o facto de escrever sobre o assunto mostra já tanta força..
É pena ser daquelas coisas em que não podemos fazer nada para passar mais depressa...
Mas conheço quem tenha passado por isso, e, com as novas gravidezes e agora com os bébés nos braços voltaram a sorrir de verdade...
Faço figas para que os projectos dela corram bem... e que o tom do blog volte ao que era!
Desculpa, mas estava a precisar de "falar" com quem estivesse a par!

Loira disse...

Sinto o mesmo e abraço o meu Zezinho com todas as forças q tenho... choro e agradeço a Deus por tê-lo aqui... Não sei o q faria se o perdesse, pq este amor q se tem por um filho é tão grande q chega a dar medo.

Carla & Repolha disse...

:) Mas tem uma explicação lógica a posição... passo a explicar... Estão por ordem alfabética. Só que no teu caso pensei em "C" de Calamity, mas escrevi "N" de nadacom... E vou corrigir para "C"... :D

O estares ao pé das pessoas muito grandes é pq apesar de teres duas piquenas usas o blog de uma forma diferente... falas delas mas não é um babyblog (estou errada???)

Beijinhos e fiquei contente com o teu contentamento :)

Céu Estrelado disse...

Vim aqui parar por acaso (uma serie de cliks) e não estou arrependida, pois gostei muito da franqueza do post, evdo sentimento que neste caso é reciproco...
Não devia ser assim, mas ao lermos tristesas grandes, temos que saber dar mais valor ao que temos e agradecer!
Gostei do teu cantinho, e vou passando se não te importares...
Bjos :)

Luz de Estrelas disse...

No que toca a perdas... nem sei o que diga. Dói mas dói tanto que qdo nos toca a nós cai-nos o mundo e qdo toca aos outros comove-nos imenso. Tb andei a ver o site da Melina ontem (outra mamã que passou há pouco pelo mesmo). Que sofrimento atroz.
Quanto ao teu blog, faz um womanblog ;) Serás mãe, mulher, política, crítica literária... o que tu quiseres :)

Sandra J. disse...

Também acompanhei o blog dela e conheci-o no fatídico dia em que deu a notícia. Também passei a ver os meus filhos com outros olhos, principalmente a minha filha que devia ter uma prima da mesma idade e que faleceu às 34 semanas, sem razão aparente...
Esse nó ficará com muitas mamãs.
Bjs

perola&granito disse...

Bom fim de semana :o)

rutebruno disse...

como entendo o que escreves... cada vez que a visito e mesmo quando tento não pensar, tudo isso me vem à ideia e o coração fica apertaddo, porque? porque? porque?
Não consigo arranjar respostas, e embora o meu coração se sinta assim, não sou eu que tenho de viver todos os dias com essa perda...
mas o nó continua cá...

Carla & Repolha disse...

Tens um desafiosito à tua espera