9/14/2007

742 da Carris ou Contos de uma Outra Vida

A cara era-me familiar. O autocarro, agora pomposamente reno(u)me(r)ado pela Carris de 742 - vulgo, para os conhecedores, 42 - é dos mais propícios a encontros com personagens que trazem reminiscências de outra encarnação.
(Sim, porque a vossa Calamity transitou para a blogosfera - com incursões a milhentos outros locais entretanto, claro está - de vidas anteriores. No meu passado lastimoso, conheci realidades que fariam corar de vergonha, embaraço e mal-estar qualquer pedra da nossa orgulhosamente única no mundo calçada portuguesa. Mundos que outros apenas vislumbram em filmes mais ou menos realistas como o premiado "Quarto da Vanda" ou dos quais ouvem ecos aparentemente surreais nalgumas das mais cruas canções dos Da Weasel. Desses anos de contacto íntimo com o mais sórdido e assustador bas-fond, trouxe para a existência actual memórias dolorosas, perdas e um recorrente nó na garganta. Pelos que vi partir, pelos que nem vi partir, mas partiram, em casas-de-banho públicas de um café do bairro, irremediavelmente irreconhecíveis em camas de hospital, em recantos obscuros e nauseabundos da encosta sobrepovoada que dava para a Avenida de Ceuta. Pelos que iniciaram então as estadias prolongadas aos diversos estabelecimentos prisionais. Pelos que ainda vagueiam por aí, tantos deles sem saberem que há muito, muito tempo se foram e nem se lembram de quando a vida era uma promessa ensolarada e sorridente. Pelos que nunca saberei se foram ou não e hoje recordo com a incómoda sensação de que não tenho bem a certeza se alguma vez existiram ou se serão apenas personagens de um qualquer sonho bizarro).
A personagem, dizia, fazia-me recuar muitos, muitos anos. Teria mais ou menos a minha idade e, para dizer a verdade verdadinha, nunca fora do meu círculo mais próximo. Nem o nome recordava. Talvez o amigo de um amigo de um amigo. Talvez sim, amigo em terceiro ou quarto grau. Estava a pouco mais de três metros, eu ainda ao pé do obliterador, ele ao pé do vidro grande, em frente à porta do meio. Parecia olhar na minha direcção. Nunca fingi não reconhecer alguém, por mais andrajoso, por mais decadente. Posso não falar com quem me tenha feito mal, mas mesmo neste caso tenho uma tendência autoirritante para deixar que o tempo retire o peso a acções que por vezes mereceriam um virar de cara para todo o resto da eternidade. Mas isso é outra história e nada tem a ver com o caso.Talvez um dia destes escreva sobre o assunto que já ocupou, aliás, outras companheiras de escrita por paragens próximas. Anyway. Olhei de volta e murmurei um "Olá, estás bem?". Não caloroso, nem sequer simpático, mas educado. A personagem continuou a fixar-me mas não reagiu. Estranhei. Não sou mais do que ninguém, mas também não sou menos e sei, de experiência própria, que estes figurantes da tal vida anterior costumam ficar gratos quando são reconhecidos por pessoas que há muito deixaram de ter qualquer contacto com o Twilight Zone. Estranhei e continuei a fitá-lo por instantes. Depois, sem lhe vislumbrar sinais de mudança na atitude, virei costas e sentei-me naquele lugar de corpo e meio atrás do condutor. Talvez estivesse envergonhado, pensei. Talvez fosse efectivamente um fantasma. De repente senti uma presença ao meu lado: "Desculpa, tu não és a Calamity?", perguntava. Sorri. "Pensei que não me querias falar", respondi. "É que estou cego".
Apenas conseguia vislumbrar algo por um curto ângulo algures no canto de um dos olhos e tinha-me reconhecido com alguma dificuldade após ter sentido que eu olhava fixamente para ele. Trocámos umas palavras, educadamente. Deve ter a minha idade mas foi "reformado há quase vinte anos", disse. Provavelmente antes mesmo de ele próprio completar as duas décadas de existência.
Minutos antes, apenas, reflectia eu sobre o facto de a minha geração ser, de facto e apesar de o epíteto ter sido atribuído àquela que veio imediatamente a seguir, a verdadeira "Geração à Rasca". Não pelo trabalho precário, de que já tenho falado profusamente, não pela vida delirante que levamos entre o excesso de actividades e o tempo que insiste em escoar-se à velocidade da luz. Mas pelo estado psicológico em que muitos de nós se (nos) encontram(os). Deprimidos, esquizofrénicos, bipolares, borderlines. Ansiosos, angustiados, preocupados, desesperados. Ao ponto de umas e outros matarem os próprios filhos e suidarem-se em seguida como lemos e ouvimos dia sim, dia não.
A personagem da outra encarnação despediu-se e saíu. Ia para uma consulta no Curry Cabral. Resumiu a sua situação sem ponta de autopiedade, com dignidade, até. Segui-o com os olhos enquanto descia a rua frente ao Corte Inglês sem que nada no seu andar deixasse adivinhar a visão quase inexistente. Não pude evitar que um afluxo de líquido me turvasse a vista. Desci na paragem seguinte.

9 comentários:

Luz de Estrelas disse...

O que se pode dizer de um texto tão forte? Sei lá, perdi o pio. É bem verdade que o tempo nos vai carcomendo a lucidez. Às tantas, em vez de usarmos esse angulozinho são que ainda nos permitiria ver o que interessa, concentramo-nos no painel escuro. Menos dignos, ainda por cima. E muito mais auto-piedosos. Ainda bem que estás numa outra dimensão e, do passado, te restam apenas personagens antigas.

Loira disse...

Ai gaja... escreves tão bem...

125_azul disse...

Queria ter chegado antes da Loira para escrever exactamente o mesmo que ela! Este texto dói muito... Beijinhos

patrícia disse...

:(
nem sei o que dizer, para além do normal escreves bem que te fartas.
Bjs

Rubrica Brasil disse...

Olha o meu coração com este texto....
Deixo uma beijoca prá ti e xuxus

Mocho Falante disse...

olha fiquei de cara à banda com o poder deste texto...Parabéns

beijocas

Anónimo disse...

Lindo...
Sim, eu!
`Jo)s

Amélia do Benjamim disse...

Pois. O que é que andamos a fazer? Volta Vicente estás perdoado! Cof Cof. Mas eu sei o que andas tu fazer, ou melhor, a criar: palavras e meninos. Achas pouco?
Achas que nos falta uma revolução(?) Também acho. Externa, pois. Tens razão.
Beijo.

AEnima disse...

Eu ja li este texto quando mo indicaste... a proposito do meu. E nao o comentei antes por relatar algo muito perto de mim. Coisa boa e' que ha casos para muito orgulho, de algumas pessoas, para alem das adversidades, se levantaram e seguiram em frente, disfarcando o facto de nao poderem "ver".