1/27/2008

Posta à mão (ou elocubrações desmesuradamente longas às quais os inúmeros e incontáveis devem evitar a todo o custo lançar-se

a não ser que se considerem inelutavelmente tão desvairados quanto a sua desvairada autora. Ós pois não digam que não avisei!)

A posta you're about to read (adoro esta expressão, estar 'about to', e qualquer tradução que lhe tentasse substituir resultaria, quanto a mim, sempre aquém do original) foi escrita duas vezes, ou seja, foi primeiro escrita em papel (diga-se de passagem que sentada diante de uma paisagem magnífica, sobre uma relva verdejantemente fresca e sentindo a carícia morna de um sol delicioso) de modos que vou já avisando os inúmeros e incontáveis que, se chegaram até aqui, seria, no mínimo, simpático que não se deixassem assustar com o comprimento da mesma (e, já agora, nem pelo das frases que a compõem, com as quais tenciono desafiar Saramago a um despique assim que o senhor melhore e saia do hospital...), uma vez que tive de me dar ao trabalho de a reescrever inteirinha no computador (assim como aos múltiplos acrescentos que foram entretanto surgindo na minha insuportável mente hiperactiva), sendo que o seu primeiro 'parto' representou para mim um exercício bastante intenso e diria até de teor quase inovador, já que não o fazia há largos meses. Refiro-me ao de escrever à mão.

Escrever textos, claro está, pois que todos os dias utilizo todas as canetas que me possam aparecer pela frente para escrevinhar nos mais diversos suportes números de telefone, endereços de email, listas de faltas, recados para mim própria, lembretes e apontamentos vários, dos quais resultam uma infinidade de papéis os quais, por sua vez inundam a pouco e pouco a minha existência e, um belo dia, acabarão, eu sei, por me submergir, se tivermos em conta que sou absolutamente incapaz de os deitar fora, quer bem se trate de uma lista onde se encontram rabiscadas as palavras "cebolas, papel higiénico, leite do dia, yogurtes naturais" (ou melhor "cebs, pap hig, leite dia, yogs nats), quer de um poema que representou o que de melhor fiz nas últimas décadas e que, por incrível que pareça, permanecerá talvez guardado ao pé da referida lista de abreviaturas de compras para fazer no supermercado antes que a minha casa e a minha família resolvam expulsar-me por incomprimento até ao dia, quiçá daqui a dez anos, em que eu resolva arrumar aquele específico monte de papéis do qual serei eventualmente capaz de colocar no papelão as contas da água e luz e mesmo assim só o farei se me aperceber que, fossem elas processos judiciais por crimes graves já teriam prescrito. (ufa! que até a mim me canso!)

Escrever à mão. À medida que o tempo passa verifico que cada vez menos o faço. Algo que pratiquei sempre com uma frequência incerta (embora desde sempre me lembre a escrever por dentro da cabeça, escrever sempre, a andar na rua, a conduzir o carro, nos transportes públicos, na fila da repartição, no jardim com os putos, no elevador, onde quer que seja) mas que mesmo assim ia fazendo, fui fazendo sempre, embora de forma diferente daquela - rara - em que o faço nos dias que correm.

"Dias que correm". Detenho-me por momentos nesta expressão e apercebo-me de repente onde reside o seu verdadeiro significado, talvez o motivo pelo qual hesitei antes de o escolher em detrimento de outro sentido aproximado como "na actualidade" ou "hoje em dia" ou mesmo "presentemente". Presente mente... "Presentemente" também mereceria uma aprofundada reflexão. Dedicarei noutra ocasião mais atenção a ambas as formulações. Ou talvez não.

Retornemos, pois, à questão que me ocupava no presente momento (olha, outra!, se bem que não é nada a mesma coisa. Adiante).
Dizia eu então - se é que nesta altura do campeonato ainda resta um único de vós, inúmeros e incontáveis, a passear os olhos estafados da esquerda para a direita e de cima para baixo, exasperando-vos na espera inglória do momento, quem sabe em vão pois poderia muito bem nunca chegar, do momento, pois, em que aqui a desvairada da Calamity se decida a ir directamente ao assunto, ou deveria eu antes dizer, a ir ao assunto tout court, já que o advérbio "directamente" representa aqui o contra-senso em todo o seu esplendor - dizia eu então para os sobreviventes desta mui cansativa e interminável prosa, que hoje em dia raramente me dedico a escrever à mão, o que, definitivamente, é um exercício substancialmente (de substância, mesmo) diferente de escrever num teclado de computador. E apercebo-me de que o faço de forma também ela diferente. Diferente do que fazia antes, digo. Antes do blog.
À pressa, gatafunhando. Não desenhando as letras com algum esmero (embora sempre tenha tido uma caligrafia bastante grave) como o fiz ao longo de muitos e muitos anos, gostando de escolher para o efeito a caneta e o papel. (Mesmo que, em caso de pânico, qualquer coisa servisse para o efeito, e muitas vezes tive de lutar contra o espaço exíguo deixado livre por um extracto bancário ou depois de ocupados ambos os lados de um guardanapo de papel, ou ainda, já cheia a prata do maço de tabaco assim como as margens do pacote...).
Que beleza, um caderno todo preenchido de letras, letras escritas com amor, com raiva, com tinta feita de emoções. Pensamentos que ganham dimensão, textura gráfica!
E, por outro lado, quantas promessas nas páginas virgens de um caderno em branco. Com linhas, quadriculado, naquele magnífico papel 'Seyès' dos franceses, semelhante a uma partitura, pronto a ficar repleto de maravilhosas palavras, prodigiosos verbos, advérbios, gerúndios e particípios, todos ligados entre si por divinas partículas, conjunções, preposições, e artigos. E pontos, muitos, muito pontos. Pontos de exclamação, de interrogação, reticências e ponto e vírgulas. Caracteriais ponto e vírgulas. Ou será pontos e vírgulas?

Postar para o papel antes de o fazer para o teclado. Recuperar aquela noção de escrever para si próprio. Guardar na gaveta os cadernos cheios de mim e nunca os revelar. Mantê-los fechados, tinta e papel coladinhos num casamento daqueles à mete-nojo, sempre tão juntinhos, tão íntimos que nunca nada nem ninguém os pode sequer adivinhar.
Que invenção fabulosa, esta possibilidade de escarrapachar as divagações que, durante séculos a fio, permanecerem no recato sepulcral dessas folhas agrupadas, encerrando entre si a própria essência dos seus autores. E, ao mesmo tempo, que perda irreparável se, de repente, deixássemos de os usar, os tais cadernos paulausterianos, de cuja maciez, densidade e aparência podia depender o teor de um texto, o seu âmago. Um pouco como os poemas gráficos, uma obra tridimensional, por assim dizer… Não estaremos nós paradoxalmente a condenar os nossos escritos a uma existência puramente ‘no plano’ quando os lançamos para a aparente multidimensionalidade da blogosfera?

(to be continued)

13 comentários:

Pitanga disse...

Não sai daí que eu vou ali beber um copo d'água e já volto.

Pitanga disse...

Ó que carago, que hoje não é o meu dia. O meu Porto perdeu, agora estas letrinhas vermelhas em cima do meu escrito. Eu disse: não sai daí que eu vou ali beber um copo d'água e já volto, pá!

Carlota disse...

Ah-ah! A blogoesfera é um quintal...
;)
Beijolas.

Pitucha disse...

Ah-ah! A blogoesfera é um quintal...
;-)
Beijos

Cristina disse...

Com o blog, noto que já não escrevo tanto à mão. Os bloquinhos, folhinhas e afins foram substituídas por lembranças no telemóvel, por apontamentos para futuros posts.
Continuo a escrevinhar muito nas viagens...

Bjos

Cristina

. disse...

:) Cj. Saramago precisa de umas lições tuas. Fizeste-me ter saudades dos cadernos. Antes, achava que nunca me habituaria a criar no computador. Mudei. Ainda escrevo intimidades à mão, sobretudo quando entupida de amor ou lágrimas nalgum lugar onde não haja PC's. De trabalho, é escusado... já só mesmo no teclado. As questões que colocas, respondidas do meu ponto de vista pessoal: sempre escrevi muito, quando tinha disponibilidade para o exercício apaixonado entre autor-papel-caneta. Depois, com menos tempo, passei a aproveitar horas paradas no trabalho para escrever. Muito menos do que o que gostaria. A blogosfera, talvez pelo feedback veio despertar a síndrome de escrita solitária. Talvez inconscientemente, friso. A frio, e lucidamente, não te sei responder porque aumentou a vontade de escrever. Sei que já não me importa o veículo, importa-me conseguir agarrar os momentos. Imortalizá-los. Para quando a velhice me roubar os sonhos. Sou viciada no passado, em fotografias, letras e recordações. Só quero que saiam de mim estes textos já escritos. Bjs. Tua Luz

Cool Mum disse...

Vocês fazem-me sentir do mais prosaico que há.
Refugio-me na ideia de que se pode ser um apreciador/amador sem ser necessariamente um criador.

Sinapse disse...

Ah-ah! A blogoesfera é um quintal...
;)
Beijos,
Sinapse

Sinapse disse...

eheheheheheheh! brincadeiras à parte ... li até ao fim e gostei das elucubrações, elocuções, frases saramaguianas!! Eu costumava escrever assim e dava-me muito mais prazer (ou pica)! o blog é que se tornou numa espécie de arena para domar a escrita, inglesá-la em frases curtas, sem parêntesis, sem trinta vírgulas, sem meter frases completas entre travessões - apenas para então regressar à longa frase que vinha desde antes do travessão - e sem saltos triplos mortais de construção semântica e gramatical. Como dizia, eu costumava escrever assim e gostava. Mas julguei que não teria inúmeros e incontáveis a digerir esse estilo, pelo que optei por inglesar a escrita para frases curtas, textos escorreitos, estrutura simplificada. Um exercício!

Gostei! Não foi o texto, mas o fundo-piscina é que cansou os olhos ...

;))


Beijinhos,
Sinapse

Pitanga disse...

Ora pois! Passado um dia do susto ( do jogo e do tamanho do post, hehe)acabo de provar um vinho chamado Herdade do Pinheiro. Alentejano, é claro, talvez para me redimir da idéia limitada de que só me dou bem com os Borba.É bom sim senhora e, hoje, temos uma temperatura amena, fora do comum no Verão.

Quanto ao teu post saiba que aonde quer que eu vá, me acompanham caneta e um bloquinho. Escrevo no shopping, no Metrô, na ante sala do dentista ou enquanto espero para ser atendida no salão de beleza. Fica tudo registrado e só depois é que vem para esta máquina que pensa que tem mais memória do que eu.

beijos e haja papel e tinta!

125_azul disse...

Estavas inspirada, mulher! Eu, ando com tanto trabalho que nem tempo para te vir cuscar tenho tido. Um post diário e olha lá. Não consigo escrever pouco. Inglesar, como a Sinapse. Tenho sempre que explicar tudo muiiiito bem explicadinho. Afinal a blosfera é um quintal ou um bidé? Vocês decidam-se...
Beijos, muitos à única que interessa!

chiqui disse...

ainda escrevo muito com caneta :)
adoro a tua escrita... fluida e bonita como nao ha...
nomeio o "casamento daqueles a mete-nojo" so porque me fez soltar uma gargalahada sonora.
Amor...
manda la um scanner da tua historia que ja me ta pra dar uma coisinha ma com tanta curiosidade... ;)))

bjos grandes miuda!!

Melões Melodia disse...

eu escrevo com o que calha! mas essencialmente com as maos - os pes, ainda nao aprendi.
Brincadeiras a parte, gosto destes texto assim, que nao acabam e onde as ideias passeiam, tal qual como passeiam quando as pensamos.
beijos