1/30/2009

Retrato-robô das sopeiras de antanho

Capítulo 1 – As criadas das nossas avós

Chamavam-se Emília ou Judite ou simplesmente Maria. Quando se falava delas eram referidas como as criadas e não havia mal nisso. Chamavam os nossos pais “Menino José Manuel” e as nossas avós “Minha Senhora”. Não tinham idade e já estavam em Lisboa há tanto tempo que nem se lembravam do nome da terra de onde vinham. Usavam lenço na cabeça, bigode e pêlos nas pernas. Dormiam num quartinho que existia em todas as casas ao lado da cozinha e acordavam antes de toda a gente para ir ao leite e ao pão e às 7 da manhã já estavam a arranjar o pequeno-almoço da família inteira. À noite, só recolhiam depois de lavada e arrumada a loiça do jantar. Decidiam e confeccionavam as refeições, sempre de acordo com as suas senhoras e não havia prato ou sobremesa que não soubessem fazer. Depois de lavada e arrumada a loiça do almoço, sentavam-se a fazer naperons de croché e botinhas para o enxoval dos netos da patroa. Andavam atrás de nós para ter a certeza de que comíamos os papos-secos com manteiga (flora) e açúcar que nos davam para a merenda depois de nos irem buscar à escola (como é que nós conseguíamos gostar daquilo???). Falavam e gritavam muito alto, e, se nos portássemos mal, tinham ordem para nos puxar as orelhas, a qual levavam à letra. Não sabiam ler nem escrever mas dominavam todos os conhecimentos necessários à administração de uma casa e nunca se enganavam nas contas nem se esqueciam de comprar o pão. Lavavam a escada do prédio e o chão da cozinha de gatas e ‘desarredavam’ os móveis de madeira maciça à força de braços para limpar energicamente o pó que se acumulava por detrás. Tinham as cozinhas rigorosamente impecáveis e se caísse pinga de gordura em cima do fogão limpavam-na com a unha. Sabiam distinguir uma peça de roupa suja de uma limpa e não era preciso dizer-lhes para tratarem da saúde ao conteúdo da tulha, que geriam. Lavavam no tanque, determinadamente, com sabão azul e branco. E não havia nódoa que lhes resistisse. Sabiam que a roupa branca se estende ao sol e a de cor à sombra e, mesmo que não tivessem grandes cuidados em evitar vincá-la quando a estendiam, não havia problemas pois arranjavam sempre um espaço na sua agenda para a engomar. E, evidentemente, arrumavam-na no seu lugar. Seria de todo impossível para elas confundir a roupa de uma mulher de 39 anos com a do seu filho de 11, por mais parecidas que pudessem ser (Sim, eu sei que nessa altura era mais fácil distinguir, mas, convenhamos, sweat-shirts XL a dizer ‘Boarder’?!). Sabiam igualmente detectar quando algo estava roto ou descosido e não era preciso dizer nada. Remendavam tudo, muitas vezes sem que sequer o dono da peça em questão se tivesse sequer dado conta do buraco. Também não era preciso explicar-lhes que a sujidade se acumula debaixo das camas e deve ser limpa, nem pedir-lhes que, por especial favor, deslocassem os objectos de cima dos balcões quando os limpavam. Sabiam sempre quando era preciso mudar as roupas das camas e as toalhas nas casas-de-banho.
Chegada a primavera, subiam para cima dos bancos e dos escadotes e lavavam os vidros por dentro e por fora, arrecadavam as mantas e os tapetes, limpavam as teias de aranha da despensa e dos tectos, arejavam todos os cantinhos da casa, tiravam a roupa de verão dos malões onde esta se encontrava, lavavam-na, estendiam-na, engomavam-na criteriosamente e nunca tinham o serviço atrasado. Todos os dias variam e lavavam o chão com sabão azul e branco e quinzenalmente enceravam as madeiras. Nesses dias, expulsavam-nos da sala, que se chamava casa-de-jantar , dando-nos palmadas nos rabos ou vassouradas na barriga das pernas. Não tinham vida própria e eram felizes assim. Ao domingo saiam às três da tarde. De inverno, iam à matinée do Tivoli ou do Paris e quando estava sol iam ao jardim da Estrela dar pão seco aos patinhos e fazer renda nos bancos. Sem esquecer, claro, a missa das seis. No regresso traziam caramelos “para os meninos”. Quando nos portávamos bem com elas, deixavam-nos ir brincar com os vizinhos mesmo que os nossos pais nos tivessem posto de castigo. Faziam parte da família e choravam com as nossas penas, emocionavam-se com as nossas alegrias e estavam presentes nos aniversários, baptizados e casamentos. Quando um dia ficavam demasiado velhas, regressavam à terra não sem antes ter ido lá buscar a sobrinha de quinze anos que se chamava Isabel ou Maria do Céu e a quem antes de partir ensinavam com desvelo todo o serviço da casa.

(próximo capítulo: As empregadas dos nossos pais)

23 comentários:

Luz de Estrelas disse...

Reconheço-as sem nunca as minha avós terem tido uma. Mas o pão com manteiga e açúcar fez-me sorrir muito. E relembrar. Lá na casa da minha avó também o comíamos com manteiga e chocolate em pó. E gemas de ovo com açúcar. E havia sempre um barril de enguias de escabeche (nojo para alguns, claro) e grandes pacotes de bolachas de baunilha que a minha avó comprava na feira semanal, que se realizava mesmo à porta de casa. Nas escadas dos meus avós, estavam as senhoras a vender doces da Teixeira e queijos e quem tinha de se arredar para entrar éramos nós. Era normal. Bom. Que saudades, CJ. O que tu foste fazer.

Monikyta disse...

lool

a minha avó tb n tinha empregada, mas reconheço o retrato na formação q me foi dada, por ela, precisamente...
Odeio manteiga [no pão] por causa dela, mas adoro chá por causa dela tb. Sou uma desgraça p a costura, mas do resto...havendo uma crise neurotica, faço tudo e melhor q a [minha] empregada do capitulo 3 [ou 4?] - mt embora n goste nada, é certo.

Das empregadas dos meus pais...quase todas eram Eva...lol.

bj meu

Madalena disse...

A vida delas era a vida das patroas. Não tinham a sua vida. Ou se calhar até tinham e eram as mães e as tias de substituição que hoje tanta falta fazem. Sonhariam à noite os mesmos sonhos das outras mulheres da sua idade? Mil beijinhos!!!!!

Cristina disse...

É tal e qual. O que me ri agora no Natal porque a minha avó, mulher de 80 anos, chama agora "funcionária" à criada. LOL

Cristina

flores disse...

:) mto bonito. E ñ as conhecendo, tb, reconheço algumas das características, claro. E a Luz agora fez-me lembrar das gemadas em casa da minha avó: :D

(Gostei mto do teu texto remate À nossa reflexão em casa da estrelinha. Mto, mto. Será por sermos ambas sagitárias? :D)

calamity jane disse...

Vai lá outra vez, Frô. Deixei lá um q recebi por emílio e que dá q pensar...
De resto... Hasta la victoria, Siempre!

flores disse...

CJ, é esse. O teu, tb, mas era a esse q rebeste por email q me referia. E sabes q é isso q sinto, neste momento? Temos a cabeça tão cheia com as ideias dos filhos-economistas q temos o país ou o mundo (q ñ está desempregado) à espera, sem produzir, de ver se a crise acaba ou se podemos começar a trabalhar. Exageros à parte.

Cool Mum disse...

:) nostálgico. A última cá de casa era Emília e foi-se embora com a revolução...
Aguardando ansiosamente os próximos capítulos.

Carlota disse...

Muito giro!
Quero mais!!

Mae Frenética disse...

Eram mais familia que criadas, digo eu.
O meu pai e a minha sogra ainda tiveram dessas empregadas, a minha mae não.

Mas eu lembro-me q a do meu pai ainda adormecia nas escadas de pedra ate o meu avo chegar à noite do trabalho para lhe abrir e fechar a porta.
Depois, lembro-me q sempre foi tratada por nos como mais uma avo... Era a Rosa

Loira disse...

As minhas avós não tinham empregadas. Uma era demasiado pobre para ter. A outra tornou-se... a típica história das meninas ricas de antigamente. Herdou uma pequena fortuna dos avós e passou uma procuração a um tio para a gerir. Claro, o tio roubou-lhe o máximo q podia e arruinou-lhe o património. Acabou apenas com a casa de família, que teve de vender para fazer face às despesas...
beijo
(Aguardo, expectante, os próximos capítulos.)

Anónimo disse...

pois cá para mim, QUERIDA, estás a esquecer-te dos abusos a que essas mulheres (criadas) estavam sujeitas. Sem vida própria, sem horários, sem ordenado e sendo muitas vezes menos estimadas que o cão e o gato dessas mesmas patroas. Sem falar, claro, tb. dos abusos sexuais por parte dos patrões e quiçá dos seus rebentos masculinos. Vá-se catar CJ (senhora dona CJ). Pode comentar à vontade. Ainda bem que já não há CRIADAS.

calamity jane disse...

Já cá faltava o veneno sem assinatura. Em que ficamos: é "QUERIDA" e "tu"
ou CJ e "Sôdona CJ"?
E eu não me esqueci de nada, , a blogosfera é um espaço de liberdade, se vossa anónima excelência o desejar pode escrever (arrotar) a sua própria posta (de pescada) e lembrar-se de referir o que quiser. Lamento que a sua realidade inclua os ditos abusos (sexuais e os outros). Eu só costumo falar do que conheço e essa realidade não conheço. Não digo que não exista (sim, ainda hoje, e não apenas no tempo das criadas - pois "já não há criadas"? Duvido. Se até escravos e escravas há)... Mas a minha posta era sobre outro assunto. Lamento tb q a sua inteligência - e despeito - não lhe tenha permitido atingir. Se quiser depois ter a gentileza de deixar link para eu e os meus estimados leitores irmos ler e comentar a sua posta terei todo o prazer e estou certa de que eles também

Anónimo disse...

minha xinhôra pesso munta dexculpa por xere anonimo, masssss xe fosse axxinado como " no name " - man - ou "no name"- woman- ou alberto caeiro 2 ou 3 ou sei lá - afrodisiaco - ou entre outros nomes -"crises 2009" ou - Euromilhões ou Afro(dite)...!! Não se iluda, em principio estão todos anonimos mas com um qualquer prenom, porque não posso eu ser o "tal" anónimo. Ele há
coisas..... Kiss...kiss.

calamity jane disse...

Já vi que adora o meu tasco; por mim está à vontade. Como compreenderá não o tratarei como cliente habitual. Falta-lhe um je ne sais quoi. Cerveja fresquinha tb terá de comprar noutro lado. Se mesmo assim não se sentir deslocado, leia, veja se aprende alguma coisa. Pode ser que lhe passe a vontade de fazer figura de parvo e lhe surja alguma ideia para canalizar o beneno. Quem sabe criar um blog?

Huckleberry Finn disse...

Eh, eh, eh, já fazia tempo que nas redes do Nada não caía uma taínha cheia de m3rd4 da cabeça à barbatana (desculpem-me a expressão os demais leitores, excepto, claro está, a dona taínha, essa sabe bem o que come... basta ler a escrita que arrota!), não, não, se calhar fica-lhe melhor é enguia (do tipo toca e foge, com o seu eléctrificante volt insignificante!) ou então fazemos o seguinte, se envenenar 3 vezes é porque é moreia (acho que a moreia nem sabe que bicho é, aquilo não é peixe nem é carne! É feia cumó raio ta parta, não tem patas nem barbatanas, vive sempre no seu buraco à espera da próxima vítima, o verdadeiro predador oportunista dos mares!), certamente que o Cherne é que ele(a) não é!
Ora aí está mais um que escreve sem se deixar ler. E olha, nem de propósito, tava vai não vai para pôr ou deixar de pôr o comment que fiz há uns dias a propósito das criadas dos avós. É que rápidamente este passou à dimensão de post e o conteúdo, que por mais verdadeiro que seja, me parecia cada vez mais empertigado, por isso as minhas dúvidas se vai não vai. Ora, este excelentíssimo anónimo foi a deixa para o meu post postar. Mas porque raio há-de ser a vida de criada uma vida tão ruim assim como aqui a nossa anónima enguia pretende defender? Senão, vejamos o próximo post, até (a)posto que a criada que vos descrevo aqui em baixo foi muito mais feliz que uma taínha, uma enguia e uma moreia todas juntas num ménage... à toi meu granda anónimo!...

Huckleberry Finn disse...

No tempo dos meus avós, a criada era ela mesma e o "choufer" era ele. C. e J. respectivamente (lol, coincidências). Essa fazia mesmo o trabalho de criada, ou talvez não, não estive lá para ver, ouvi da boca do meu Pai, que era a cozinheira, de mão cheia.
Estavam bem colocados, na Quinta da Regaleira, sim essa, única, em Sintra, construída pelo "excêntrico" António Augusto Carvalho Monteiro, o Monteiro dos Milhões. Prestavam serventia à família D`Orey (tudo um rol de chatices na vida de uma criada!), o meu Pai deve ser das pessoas que melhor conhece os túneis da quinta, contou-me imensas histórias desses tempos, já que enquanto J. levava o seu patrão pela antiga Marginal ao escritório do seu negócio (que infelizmente por branca minha agora se me escapa qual) e C. cozinhava para uma família com doze filhos, ele andava a explorar não só a quinta como a restante Sintra em si (mas isso são outros posts e não comments, aliás este mesmo já vai para lá da Trafaria, ainda vou ter de dar destino diferente a isto... e dei mesmo!). Diz-se, dos túneis, terem servido para ocultar as entradas e saídas dos que frequentavam as reuniões maçons que ali se faziam sob o mais alto sigilo. Facto é que ali brincou com o Carlos, sim esse, da realeza espanhola e outros tantos, porque nessa altura o filho da criada fazia quase parte da família... ah pois, a criada!... A criada dos meus avós era ela mesma, era a cozinheira dedicada a uma família numerosa e com estatuto social. Era a sua mão que preparava pratos de bem comer, que enchia a mesa de serviços das melhores louças para os olhos encher, era essa sua mão que "confeccionava" as delícias tradicionais da época com sabores cheios de prazer. Era a "força de braços" que mantinha a cozinha como uma divisão do palácio por excelência. Era ela quem orgulhosamente tinha por marido um dos homens que fora dos primeiros portugueses a ir a Paris buscar em caravana uma frota dos primeiros taxis que existiram em Portugal, era ela quem se orgulhava disso e muito mais.
Foi aos olhos brilhantes da criada C. que os seus filhos cresceram com iguais oportunidades e mordomias de uma prestigiada e abastada família deste país. Era a ela que lhe tinha sido dada a sorte de ver os filhos brincar em tamanha natureza. Sintra é sem dúvida alguma das mais bonitas terras deste país. Foi a si e assim que passou inúmeras tardes de folga ao sabor dos ventos húmidos da serra, em longos pedestres passeios pelos mais bonitos panoramas que se pode imaginar, em jardins, conventos, palácios e mosteiros que mais pareciam saídos de um conto de fadas. Seteais, Mouros, Capuchos, Pena, Monserrate, são marcos deste património Mundial. E mais não digo, pois não vá alguém confundir a vida "escrava" de uma criada com a história de uma princesa encantada.

Jo)kas

Huckleberry Finn disse...

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Tita disse...

Só me ocorre escrever fascinante este teu post!.

Da minha avó guardo que uma sardinha era dividida para tês filhos... Tempos que jamais saberemos dar valor...

Sinapse disse...

Hello?? ... continuamos à espera do próximo capítulo!








:))

AEnima disse...

Ao contrario de muita gente que aqui vejo comentar, a minha avo nao tinha criada. Antes era ela criada de servir, desde os 4 anos de idade, na casa dos proprios tios, duques de brasao, que deserdaram a irma mae dela por se ter casado com alguem contra a vontade da familia. Felizmente deram-lhe a oportunidade de casar aos 28 anos e sair da casa de servir para constituir familia e outra vida, numa terra longe. E' verdade que essas mulheres sim sao mulheres de luta, de vida, que passaram esse instinto de sobrevivencia e valores de rectidao nua e dura 'a sua prole, quando e se tiveram oportunidade. Mas nao lhes invejo a vida e a sina.

AEnima disse...

Ja vi o resto dos comentarios... e foste atacada pelo espirito piroso do anonimato! Juro que nao fui eu! E sim... infelizmente... conheco bem os casos de violacao que o anonimo fala. COmo te dizia, nao lhes invejo a vida nem a sina de forma alguma. Antes fossem so as violacoes. Mas credo... porque ha medo de comentar algo contra? Rais parta a cobardia dos anonimos.

AEnima disse...

Voltei mais uma vez para te dizer que este assunto me inspirou uma posta (de pescada... arrotada... eheheh)